BRISA DA SEMANA

Deusa,

Desde a carta de setembro, quando eu te contei do micélio que brilha e do cogumelo que não brilha, uma pergunta ficou rondando a minha cabeça: e se tivesse um que brilhasse inteiro?

Tem e ele é brasileiro.

Eu passei a semana lendo sobre ele à noite, de luz apagada, com o celular no mínimo, e fui dormir mais de uma vez pensando que a natureza tem um senso de humor muito fino.

Um dos cogumelos que mais brilham no mundo nasce no pé de palmeira, no meio do cerrado, e passou mais de um século e meio sem que quase ninguém de fora soubesse que ele existia.

Em 1839, uns meninos de Goiás brincavam com uma luz

Numa noite escura de 1839, um botânico escocês chamado George Gardner chegou à Vila de Natividade, que na época ficava em Goiás e hoje é Tocantins.

Ele estava atravessando o interior do Brasil a cavalo, catalogando planta, e viu uns meninos na rua brincando com alguma coisa que brilhava verde.

Achou que fosse vaga-lume.

Era um cogumelo.

O povo de lá chamava de flor-de-coco, porque nasce nas folhas mortas das palmeiras, e pra eles aquilo era coisa comum, brinquedo de criança.

Gardner mandou exemplares pra Inglaterra e contou a cena no livro que publicou em 1846, que aqui saiu como Viagem ao interior do Brasil.

Depois disso, silêncio.

O cogumelo sumiu dos registros científicos por mais de cento e sessenta anos.

Aqui eu vou ser honesta, porque eu mesma imaginava uma expedição atrás de cogumelo: quem reencontrou o flor-de-coco, em fevereiro de 2005, foi um grupo de primatólogas que estava no Piauí estudando macaco-prego.

Elas foram atrás de outra coisa, olharam pro chão na hora certa, e ele estava lá.

Só alguns anos depois ele ganhou o nome científico que tem hoje, Neonothopanus gardneri, em homenagem ao escocês.

Eu adoro essa história porque ela desmonta a ideia de que as coisas importantes se revelam pra quem está procurando por elas.

Às vezes elas aparecem pra quem estava com a atenção aberta.

Ele brilha de propósito, e na hora certa

O que eu mais gostei de descobrir veio depois.

Uma equipe de pesquisadores da USP foi estudar o flor-de-coco de perto e percebeu que ele não brilha o tempo todo com a mesma força.

A luz dele segue um relógio interno, como o nosso sono: fica mais intensa à noite e diminui de dia, mesmo no escuro do laboratório, longe do sol.

Aí eles fizeram uma coisa linda. Fabricaram cogumelos falsos de acrílico, puseram uma luzinha verde dentro de metade deles, e espalharam tudo na mata.

Os que tinham luz atraíram muito mais insetos.

A suspeita é que o brilho chama bicho que depois sai carregando os esporos, levando o cogumelo pra outros lugares.

Então a luz tem endereço, Deusa.

Ela existe pra ser vista por quem anda no escuro.

E tem uma diferença que eu preciso registrar, porque eu mesma te contei a outra metade em setembro: no cogumelo do mel, só o micélio brilha, a parte que fica embaixo da terra.

No flor-de-coco brilha o cogumelo inteiro, o chapéu e as lâminas, a parte que aparece.

São estratégias diferentes de bichos diferentes, e as duas são verdade.

A carta que aparece quando está tudo escuro

No Sabedorias da Terra, o cogumelo bioluminescente é a carta vinte e sete.

Na carta está escrito Luz interior; no livreto, o nome dela é a testemunha interna.

O livreto diz que essa luz se revela com mais clareza justamente quando o ambiente ao redor está mais escuro.

E diz que essa carta aparece quando você não sabe bem pra onde ir, o que decidir, como se sentir, qual o próximo passo.

Eu já estive muito nesse lugar.

Toda vez que eu tento sair dele acendendo todas as luzes de fora, perguntando pra todo mundo, lendo tudo, enchendo a agenda pra não ter que sentir, eu me perco mais.

O que me tira de lá é bem mais quieto. É uma parte de mim que estava vendo tudo esse tempo inteiro e que eu só consigo ouvir quando o barulho abaixa.

Testemunha é uma palavra bonita pra isso. Alguém que viu.

Que estava ali.

Que não precisa provar nada, só contar.

Deusa, quando foi a última vez que você deixou o escuro ficar escuro tempo suficiente pra enxergar alguma coisa nele?

Se essa carta te chamou, o baralho inteiro está aqui:

Tem cogumelo que leva anos pra mostrar a cara

Enquanto eu estudava o flor-de-coco, fui reparando que vários cogumelos do baralho têm essa mesma relação com o tempo e com o que fica escondido.

A chaga cresce em bétula, nas florestas frias do hemisfério norte. O nome vem do russo tchaga, que por sua vez vem de uma palavra dos povos da região do rio Kama pra cogumelo.

Aquela massa preta e rachada, com cara de carvão, que todo mundo fotografa no tronco, é um bolo de micélio.

A chaga passa de dez a oitenta anos dentro da árvore, e só quando a árvore morre ela forma o corpo de frutificação de verdade, embaixo da casca, onde quase ninguém vê.

Aqui também eu preciso ser honesta: hoje a chaga é vendida como chá milagroso pra tudo, e a ciência ainda não tem evidência suficiente pra sustentar a maior parte dessas promessas.

Em quantidade alta, inclusive, ela pode fazer mal aos rins.

O que eu acho bonito nela é outra coisa.

No baralho, ela é a carta da força que atravessa o tempo: o conselho da sua avó que só faz sentido vinte anos depois, a habilidade do primeiro emprego que hoje sustenta o seu trabalho inteiro.

A juba de leão parece uma cascata branca de fios saindo do tronco.

Os japoneses chamam de yamabushitake, o cogumelo dos yamabushi, os monges eremitas das montanhas, por causa da semelhança com o adereço de franjas que eles usam na roupa.

A fama de cogumelo da memória é bem recente, e os estudos ainda são pequenos.

A carta dele, no baralho, é o passado.

Ela fala de olhar pra trás sem chamar isso de regredir, e de ir buscar partes suas que ficaram esquecidas no caminho.

E tem a orelha-de-pau, que os chineses chamam de mù'ěr, orelha de madeira.

Ela é fina, gelatinosa, e tem um comportamento que eu acho comovente: quando o tempo seca, ela encolhe, endurece e parece morta; quando chove, ela incha de novo e volta a abrir, como se nada tivesse acontecido.

A carta dela é ouvir de verdade, e ela aparece quando a vida está tentando te dizer alguma coisa e você está ocupada demais falando.

Um pequeno rito no escuro pra essa semana

Escolhe uma noite.

Apaga as luzes da casa, deixa o celular em outro cômodo, e acende uma vela só. Senta perto dela uns dez minutos, sem fazer nada. Repara no que aparece quando não tem nada pra olhar.

Depois, faz uma pergunta em voz baixa. Uma só. Pode ser o que eu já sei e ainda não admiti? ou o que em mim está pedindo atenção?

Se você tem o seu baralho, tira uma carta ali, à luz da vela, e lê a mensagem dela antes de acender qualquer outra luz.

Se não tem, escreve a resposta num papel, à mão, do jeito que vier.

Na manhã seguinte, relê.

O escuro costuma dizer coisas que o dia, sozinho, não teria deixado escapar.

Entre nós

Eu vou te confessar uma coisa.

Eu sempre tive pressa de sair das minhas fases escuras. Quando elas chegam, a minha primeira reação ainda é procurar uma solução, uma pessoa, um plano, qualquer coisa que acenda a luz rápido.

E esse cogumelo me fez pensar que eu talvez tenha perdido muita coisa por isso.

Se os meninos de Natividade tivessem acendido uma lamparina, Gardner teria visto só um cogumelo amarelado, igual a tantos outros, numa folha de palmeira. A luz dele só existe pra quem aceita ficar no escuro mais um pouco.

Hoje, quando eu não enxergo o caminho, eu tento ficar. Nem sempre consigo. Mas quando consigo, quase sempre tem alguma coisa ali, verde, pequena, que estava brilhando havia tempo e eu é que não estava olhando.

🌙 Sabedorias da Terra — 30 cartas para despertar reflexões, provocar novos olhares e abrir pequenos portais de consciência, a partir da sabedoria silenciosa dos cogumelos.

Escrito e idealizado por mim, numa experiência Mushin.

A pergunta que eu te deixo pra esse domingo: o que em você só aparece quando você para de acender todas as luzes?

Com carinho,

Laylä Föz 🌙