BRISA DA SEMANA
Deusa,
Quando eu era menina, tinha uma mulher na minha rua que todo mundo chamava de bruxa.
Era sem maldade, um jeito de dizer que ela era esquisita. Morava sozinha, tinha um quintal que parecia mato pra quem passava e era farmácia pra quem entrava, e sabia o nome de tudo que crescia ali.
Quando alguém da rua tinha uma dor que o remédio não resolvia, acabava batendo na porta dela. Eu me lembro da minha mãe voltando de lá com um punhado de folhas amarradas com barbante e instruções que ninguém tinha escrito em lugar nenhum.

Levei uns trinta anos pra entender quem era aquela mulher.
Ela era o fim de uma linhagem.

Elas não adivinhavam nada (e isso é mais impressionante)
Outubro está terminando, e com ele chega a semana em que o mundo inteiro brinca de bruxa. Eu gosto da fantasia, mas todo ano a caricatura faz a gente esquecer quem era, de verdade, a mulher chamada assim.
Antes de qualquer previsão de futuro, ela era uma mulher que sabia coisas.
Sabia qual folha corta a febre, em que lua se planta e em que lua se colhe, como ler bicho e nuvem antes da chuva. Sabia acompanhar um parto e o primeiro sangue de uma menina. Esse saber passava de avó pra neta, testado em corpo real durante séculos.

E ele ficou guardado em papel. A coleção Wellcome, em Londres, tem centenas de cadernos de receitas escritos por mulheres entre os séculos XVI e XVIII, cheios de emendas e anotações na margem, passados de mãe pra filha. Dá pra ver a mão.

Chamar isso de superstição foi uma escolha.

Nove milhões é mentira (e o número verdadeiro incomoda mais)
Você provavelmente já ouviu que nove milhões de mulheres foram queimadas na Europa.
Eu já repeti esse número. Ele nasceu de uma conta de 1784: um funcionário alemão achou umas trinta vítimas na própria cidade e multiplicou pela Europa inteira e por onze séculos.
Os historiadores falam hoje em quarenta a sessenta mil execuções, entre os séculos XV e XVIII. Quatro em cada cinco eram mulheres. Só na Escócia, a Universidade de Edimburgo catalogou, uma por uma, 3.837 pessoas acusadas.
A pensadora italiana Silvia Federici, em Calibã e a Bruxa, mostra que a caça teve função: ela acontece justamente quando as terras comuns estão sendo cercadas, e cai sobre mulheres pobres, velhas e sozinhas. Assim como os cercamentos tiraram a terra do camponês, a caça às bruxas tirou da mulher o próprio corpo.

Aqui eu vou ser honesta, porque eu mesma já repeti: a frase "as bruxas eram as parteiras da aldeia" não se sustenta. Em Lucerna, de quarenta e cinco mulheres julgadas, só uma era parteira. A parteira costumava ser figura juramentada, e isso a protegia.
O que foi destruído foi a autoridade que mulheres velhas e pobres tinham sobre o corpo, a cura e a vizinhança. Isso é mais difícil de nomear, porque não tem crachá.

Ler a natureza era uma tecnologia
Quem lia o mato lia porque tinha passado a vida inteira olhando pro mesmo lugar. Sabia que aquela flor abrindo era o frio indo embora, que passarinho baixo era chuva chegando. É daí que vem metade do que hoje a gente chama de ciência.

Em cima disso existia uma camada simbólica, a doutrina das assinaturas: a ideia de que cada planta trazia na forma aquilo que ela cura. A noz parece um cérebro. Os furinhos da folha da erva de São João parecem poros, então ela serviria pra pele.

Como método de cura, falhou, e falhou caro. Como jeito de prestar atenção ao mundo, é lindo. A natureza fica em silêncio. Nós é que sempre fomos leitoras.
Foi pra isso que eu criei o Sabedorias da Terra: um jeito de voltar a ler, uma carta por vez, a partir do reino mais discreto da floresta.

A minha vizinha, se fosse do Paraná, teria uma lei
Deusa, essa parte me fez chorar enquanto eu escrevia.
No Brasil, a linhagem mudou de nome e continua viva. No interior do Paraná, benzedeiras, rezadeiras, parteiras e remedieiros se organizam desde 2004. Em 2018, o estado reconheceu esse saber como patrimônio cultural imaterial, e quem diz que é detentora do ofício é ela mesma. Só nos três primeiros municípios foram mapeadas mais de quatrocentas mulheres.

Uma delas, dona Agda Andrade, benzedeira desde criança, disse uma frase que eu não consigo tirar da cabeça:
Antigamente, as pessoas tinham medo de ser presas.
A minha vizinha do quintal também escondia, do jeito dela. Deixar a rua chamá-la de esquisita era mais seguro.

Entre nós
Eu já tive muita vergonha dessa parte de mim.
Teve uma época em que eu falava de meditação e calava o tarot, falava de neurociência e calava o ritual, porque eu conhecia o olhar que vinha.
Era o mesmo que a rua da minha infância dava pra vizinha do quintal.

Hoje eu entendo esse constrangimento como herança, ensinada com muita eficiência a gerações de mulheres antes de mim.
Eu não acredito em tudo, e essa carta é a prova. Mas desconfiar de si mesma por padrão foi colocado dentro da gente, e desaprender isso é trabalho de uma vida.
Deusa, o que você sabe e não anda deixando saber?

Um baralho pra quem quer voltar a ler
Aquelas mulheres olhavam pra uma folha, pra lua, pra água na cuia, e usavam aquilo como espelho. O objeto era o lugar onde a atenção parava tempo suficiente pra que o que já estava dentro pudesse subir.
Um oráculo faz exatamente isso. Você tira uma carta, a imagem fura a conversa automática que você tinha com você mesma, e o que fica é uma pausa com pergunta dentro.
O convite pra essa semana de Dia das Bruxas: escolha uma manhã, antes do celular, tire uma carta do Sabedorias da Terra e repara no que sobe em você.

Você encontra o oráculo aqui:
Com carinho,
Laylä Föz 🌙
