BRISA DA SEMANA
Deusa,
Tem uma palavra em português que faz um trabalho péssimo, e essa palavra é solidão.
A gente usa ela pra nomear duas coisas que não têm absolutamente nada a ver entre si, e talvez seja exatamente por isso que a gente se enrole tanto na hora de entender o que está sentindo.
Uma dessas coisas é o silêncio das cinco da manhã na cozinha, com o café fumegando, ninguém pra agradar, ninguém pra responder, só você e o barulho do bule esquentando, e esse tipo de solidão, eu te garanto, é remédio.

A outra é três dias seguidos sem ouvir uma voz humana, a mesa de almoço de domingo vazia, o aniversário que passou sem ligação, aquela sensação fina de que se você sumisse agora ninguém ia notar até a semana que vem, e esse tipo de solidão, do mesmo jeito que eu te garanti o anterior, é veneno.
É a mesma palavra carregando duas vivências que são quase o oposto uma da outra, e uma das maiores incompetências afetivas que a gente herdou desses tempos é não ter aprendido a diferenciar as duas, então acabamos tratando ambas com o mesmo medo.

Existe uma solidão que é remédio (e ela tem três marcas)
Audre Lorde, poeta e ativista negra, escreveu uma das frases mais importantes que eu já li sobre o cuidado de si mesma: "cuidar de mim não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política".

Quando ela diz isso, ela está falando de uma mulher que foi historicamente treinada pra estar disponível pra todo mundo o tempo inteiro, a mãe, a esposa, a filha, a profissional, a amiga, a cuidadora, sempre acessível e sempre prestativa, sempre se repartindo em pedaços pra distribuir.
Pra uma mulher assim, sentar sozinha sem o celular por trinta minutos não é fuga nem isolamento, é um gesto quase revolucionário, não porque ela está virando as costas pro mundo, mas porque ela está, finalmente, se reencontrando.
A solidão que cura, eu fui percebendo com os anos, tem três marcas que a denunciam.
A primeira é que ela é escolhida, porque você sabe que poderia ligar pra alguém a qualquer instante e está apenas optando por não ligar agora, e é essa escolha que muda tudo.
A segunda é que ela tem um propósito interno, já que você está ali sozinha justamente pra ouvir aquilo que no meio do barulho não dá pra escutar, seja a voz da intuição, seja a saudade que pede pra ser chorada, seja a ideia que ainda está tentando nascer.
A terceira é que ela é finita, tem hora pra começar e hora pra acabar, e quando acaba você volta pro mundo mais inteira, não mais arranhada.

E tem a outra, que ninguém escolhe
Aí existe a outra solidão, e eu acho importante nomear ela com a mesma seriedade, sem romantizar nem fingir que toda solidão é uma oportunidade disfarçada de crescimento.

A solidão imposta tem outras três marcas, e elas são o espelho invertido das primeiras.
Ela não é escolhida, porque você queria companhia e não tem, tentou ligar e ninguém atendeu, tentou marcar e ninguém pôde, tentou se aproximar e foi recebida com frieza.
Ela também não tem propósito, porque não está te ensinando nada que você precise aprender, está só corroendo por dentro e te fazendo questionar se você merece presença.
E ela não é finita, porque se estende dia após dia, semana após semana, sem nenhum horizonte à vista, já que não há evento marcado pra interromper o ciclo.
bell hooks, no livro All About Love, escreve sobre como tantas mulheres aprenderam a ter medo do próprio espaço, mas escreve também sobre o extremo oposto, sobre como tantas outras foram empurradas pra um isolamento que ninguém escolheu e que se disfarça de fracasso pessoal quando, na verdade, é a falha estrutural de uma sociedade que foi destruindo, aos poucos, as redes de cuidado que sustentavam a gente.

Por isso eu insisto numa coisa: a solidão que adoece quase nunca é culpa de quem está dentro dela. E justamente porque ela é diferente, ela pede uma resposta diferente, que não é mais silêncio.
Ela pede ponte, pede ligação, pede comunidade, pede ajuda profissional quando é o caso, pede que você saia de casa e aceite aquele convite que você vem dizendo que não há tempo.

A pergunta que separa uma da outra
No fundo, a pergunta que muda tudo é simples de fazer, mas exige uma honestidade que nem sempre é confortável: quando você se vê sozinha hoje, você está sozinha com você, ou sozinha de você?
Estar sozinha com você é a solidão que cura, porque mesmo sem mais ninguém na sala você está em boa companhia.

Estar sozinha de você é a solidão que adoece, porque você está afastada de si mesma ainda que esteja fisicamente acompanhada, e aí o silêncio dói não pelo que falta lá fora, mas porque ele vira eco de um vazio que mora dentro.
A resposta pra cada uma delas é exatamente oposta, e essa é a parte que importa.
Se for a solidão que cura, fica, aprofunda, dá mais tempo pra ela, resiste à tentação de pegar o celular pra preencher o espaço, porque o espaço é o ponto, não o problema.
Se for a solidão que adoece, busca, liga, sai, procura, fala com um profissional se precisar, e não romantiza o isolamento como se ele fosse força, porque às vezes ele é só uma ferida pedindo cuidado.
A maturidade afetiva, pra mim, mora inteira nesse discernimento.

Trinta minutos só seus, com uma regra única
Se você sentir que essa semana é de solidão que cura, eu quero te propor uma coisa pequena.
Reserva trinta minutos, em qualquer dia e horário, mas que seja deliberado, marcado na agenda como se fosse um compromisso de verdade, porque é.
Esses trinta minutos têm uma regra única, e ela é inegociável: nada de tela.

Fora isso, o cenário é todo seu, você pode ter caderno, livro, chá, vela, plantas, a janela aberta ou um banho demorado, pode escolher o silêncio absoluto ou uma música instrumental baixinha ao fundo, pode estar em casa, num parque ou num café com o celular guardado dentro da bolsa.
E nesses trinta minutos você não faz nada além de observar, observa o que vem na cabeça, observa o que aparece no corpo, observa aquilo que andava abafado pelo barulho de sempre.
Não precisa anotar, não precisa concluir nada, não precisa transformar a experiência em insight pra postar depois, é só a sua presença, com você, por trinta minutos.
E eu te garanto que, se você fizer isso uma vez por semana, em três semanas você vai ser uma mulher diferente, não no sentido de transformada, mas no sentido de mais inteira.

Entre nós
Deusa, eu vou te confessar uma coisa que demorei pra admitir: eu cresci com medo de ficar sozinha.
Eu achava que ficar sozinha era sinal de que tinha alguma coisa errada comigo, então passava os dias preenchendo o silêncio com qualquer ruído que aparecesse, podcast, série, ligação, scroll infinito, qualquer coisa que me impedisse de escutar o que eu estava sentindo de verdade.
Demorou muito até eu entender que aquele medo nem era meu, ele tinha sido treinado em mim, do mesmo jeito que foi treinado em tantas de nós que aprendemos a ter pavor da própria companhia e a confundir solidão com castigo, quando ela podia ser recurso.
E, agora quero te deixar a pergunta, pra você levar pro café da tarde: hoje, agora, qual das duas solidões está em você, e qual é o gesto que ela está pedindo?
Não tem resposta certa. Tem a sua.
Laylä Föz 🌙
