BRISA DA SEMANA

Deusa, você já pensou no que está comemorando quando comemora a Páscoa?

Vou ser honesta: esse texto vai desmontar algumas coisas.

Não pra destruir o chocolate, o chocolate pode ficar, mas pra contar a história que ficou embaixo de tudo isso.

Porque a Páscoa é uma das festas mais ricas em camadas históricas que a gente tem. E a maioria dessas camadas sumiu sob o papel de celofane e os ovos de plástico.

Aconteceu com o Natal, eu falei sobre isso numa brisa anterior, e aconteceu com a Páscoa também.

Quando você entende as camadas, não perde o significado, e sim, ganha mais.

Antes de tudo: o Pesach

A história começa com o Pesach, a festa judaica da Páscoa.

E começa com escravidão e liberdade.

O livro do Êxodo narra a história dos hebreus escravizados no Egito por geração após geração, e de uma saída, sendo uma travessia improvável pelo deserto.

O nome Pesach vem do hebraico "passar por cima", referência ao momento em que o anjo da morte passou pelas casas marcadas com sangue de cordeiro, poupando os filhos dos hebreus.

Mas o significado do Pesach vai além do evento histórico, ele é celebrado até hoje porque representa algo universal, a possibilidade de sair do que nos prende.

Não necessariamente escravidão literal…

  • Pode ser um padrão que se repetiu por gerações na sua família.

  • Um relacionamento que prende.

  • Uma narrativa interna que você herdou sem questionar.

  • Uma situação que parecia permanente, e não era.

O Pesach diz: Passagem é possível. Do outro lado do deserto, existe algo diferente.

A Páscoa cristã herdou essa estrutura, o conceito de morte e ressurreição segue o mesmo arco: algo que precisava morrer, morre, e, algo novo emerge do que parecia fim.

É a mesma narrativa de passagem e transformação.

Ovos, coelhos e primavera, de onde veio isso tudo?

Aqui é onde a história fica mais interessante.

Os ovos e os coelhos não vêm de Jerusalém. Vêm das planícies europeias, dos povos germânicos e celtas que, muito antes do Cristianismo chegar, celebravam a chegada da primavera no equinócio de março.

Esses festivais celebravam o fim do inverno. O retorno da luz. O despertar da terra. A fertilidade que voltava depois de meses frios e escuros.

Ovos eram símbolo óbvio de fertilidade e renascimento. Coelhos também, pelo comportamento reprodutivo abundante na primavera.

E tem um detalhe que eu acho fascinante: há registros de uma deusa da aurora e da primavera chamada Eostre, ou Ostara.

O nome dela tem a mesma raiz linguística de "Easter", Páscoa em inglês, e de "estrogênio." A deusa da primavera e o hormônio feminino compartilham a mesma origem etimológica. Eu acho isso lindo.

Quando o Cristianismo se expandiu pela Europa, fez algo inteligente: absorveu as festas que já existiam, a data da morte e ressurreição de Jesus foi posicionada próxima ao equinócio de primavera, e os símbolos pré-cristãos foram integrados à celebração.

O resultado é o que você conhece hoje: ovos de Páscoa, coelhinhos, chocolate, data móvel calculada pela lua de março.

Tudo isso junto é a história humana se acumulando, uma narrativa sobre outra.

Como o mercado transformou rito em produto

Até o século XIX, a Páscoa era primariamente religiosa ou sazonal, o chocolate apareceu depois, quando as indústrias europeias de confeitaria descobriram que a data era uma oportunidade comercial.

O primeiro ovo de chocolate foi criado na França em 1828. Em pouco tempo, fabricantes ingleses como a Cadbury transformaram os ovos em tradição de mercado.

E aqui eu preciso dizer o que penso: o chocolate não é o problema, o problema é o de sempre, quando o rito vira produto, o produto fica e o rito some…

O que você compra no supermercado hoje não tem mais nenhuma conexão com Pesach, com Eostre, com ressurreição ou primavera. É a embalagem sem o conteúdo verdadeiro.

E a gente come a casca achando que é o conteúdo…

Aconteceu com o Natal, as luzes ficaram, o Papai Noel ficou, a árvore ficou. E o solstício, a renovação da luz, o sentido original de esperança, simplesmente sumiu…

Os ovos ficaram, o coelho ficou, o chocolate ficou. E a passagem, a travessia, o significado de que algo que prendia pode ser superado, também sumiu…

O que faz sentido manter

Eu não estou pedindo que você jogue o chocolate fora, mas quero propor que você use a Páscoa pra algo que a data, em todas as suas camadas, sempre sugeriu: passagem, renovação, travessia.

O que na sua vida está esperando uma passagem?

Não precisa ser dramático, pode ser uma conversa que você postergou.

  • Um hábito que você sabe que precisa mudar.

  • Uma relação que mudou de forma e você ainda não nomeou isso.

  • Uma versão de você mesma que ficou pequena e que você ainda habita por inércia.

O equinócio, que coincide com a Páscoa, é um ponto de equilíbrio entre luz e sombra.

Dia e noite iguais, nem um domina o outro.

É um momento bom pra parar e olhar o que ficou no inverno que não precisa ir pra primavera? O que você quer cultivar nos próximos meses?

Você não precisa dos ovos de chocolate pra fazer isso.

Mas se quiser o chocolate, pode. Só coma sabendo que está celebrando o fim do inverno e a volta da primavera, algo que povos antigos fizeram por milênios antes de você.

Isso torna o chocolate mais gostoso, honestamente.

Entre nós

Sempre que olho pra essas datas, Natal, Páscoa e Equinócio, fico impressionada com a consistência dos humanos.

Por milênios, em culturas completamente diferentes, sem comunicação entre elas, as pessoas paravam nos mesmos momentos do ano pra celebrar as mesmas coisas.

Isso não é uma coincidência histórica… como muitos tentam emplacar, mas é algo no ritmo humano que precisa de pausa, de rito, de reconhecimento de que o tempo passou e que algo mudou.

A gente perdeu muito disso…

O que é triste… Mas você pode criar seus próprios rituais!

  • Acender uma vela.

  • Escrever o que você quer deixar pra trás nessa passagem.

  • Comer algo bom com as pessoas que você ama.

  • Caminhar na manhã de Páscoa como se estivesse recebendo a primavera.

Honre o ritmo, o mesmo que todas as mulheres que vieram antes de você honraram, de formas diferentes, no mesmo momento do ano.

Boa passagem, Deusa.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

Keep Reading