BRISA DA SEMANA
A pergunta que Beauvoir jogou no mundo
Deusa, me diz: por que tantos relacionamentos fracassam quando ninguém, de fato, é vilão?

Simone de Beauvoir acreditava que o problema não está no amor em si, mas no modelo de amor que aprendemos.
Crescemos ouvindo que amar é se entregar completamente, “ser uma só pessoa”, “virar a metade do outro”. Parece bonito, mas é exatamente aí que tudo começa a desandar…

Para Beauvoir, esse tipo de fusão não é romantismo; é apagamento. O amor deixa de ser encontro e vira desaparecimento, geralmente de um lado só…
E, talvez, você já tenha vivido um pouco disso: aquela sensação sutil de que, para o relacionamento funcionar, você precisa caber em um molde que não é o seu… falar menos, ceder mais, suavizar os cantos, diminuir um pedaço importante da sua vida.
Ela jogou luz numa pergunta incômoda: como amar sem perder a si mesma?
Reflita sobre isso, pense de verdade…

O amor romântico como prisão…
Simone de Beauvoir observava algo que ainda atravessa muitas relações: a ideia de que o amor precisa de fusão para ser verdadeiro.
Que duas pessoas só se tornam “de fato um casal” quando deixam de ter vidas separadas, parece romântico, mas historicamente isso custou caro, principalmente, para as mulheres.

Para ela, o amor romântico tradicional funciona como um contrato silencioso.
Nele, uma pessoa é incentivada a se expandir; a outra, a se adaptar. Uma assume o centro da narrativa; a outra ocupa o espaço do suporte.
Quando a dependência emocional ou identitária se instala, o vínculo perde equilíbrio, e a liberdade desaparece disfarçada de devoção.
Beauvoir não condenava o amor, condenava a assimetria. O risco não está em se envolver profundamente, mas em transformar o outro em destino, e não em escolha.
Ela dizia, na prática, que idealizar alguém é a forma mais fácil de perder a capacidade de enxergar a relação como ela realmente é. E quando o ideal pesa mais do que o real, o amor para de acontecer entre dois sujeitos e passa a acontecer entre fantasia e culpa.

Amar sem desaparecer!
Para Beauvoir, amar não era “ceder tudo” nem “provar lealdade” em troca de segurança.

Era exatamente o contrário: um acordo entre duas pessoas que escolhem permanecer inteiras. Nada de fusão, nada de absorção, nada de transformar o outro em projeto de vida.
Ela dizia que o amor só funciona quando cada pessoa tem uma existência própria, como: interesses, amizades, ambições e tempo.
Não por egoísmo, mas porque só quem é sujeito consegue amar de verdade. Quem abandona a si mesma para sustentar a relação acaba exigindo, mais cedo ou mais tarde, que o outro compense essa falta.
E é exatamente assim que se cria dependência.
Deusa, talvez você já tenha vivido essa pequena armadilha: acreditar que “provar amor” significa colocar o outro no centro e mover a própria vida para caber nos espaços dele.
Beauvoir chamaria isso de renúncia camuflada. E toda renúncia cobrada vira ressentimento.
Para ela, o amor que dura é o amor que permite que cada uma cresça, e que sustenta a tensão saudável entre vínculo e autonomia. Um não anula o outro. Pelo contrário, é essa combinação que mantém a relação viva.

Amar, segundo Beauvoir, é correr o risco de perder sem tentar controlar, é deixar o outro ser livre o suficiente para continuar escolhendo ficar.

Quando o amor expande, e quando começa a limitar:
A teoria da Beauvoir ganha clareza quando a gente observa o cotidiano.
Não é nos grandes discursos que a liberdade desaparece, é nos pequenos movimentos: quando você deixa de dizer o que pensa para não “pesar o clima”, adia um projeto pessoal para acompanhar o ritmo do outro, começa a calibrar seus gestos para caber na sensibilidade alheia… e assim por diante.
Nada disso vira problema no primeiro dia, o problema realmente surge quando vira padrão.

Beauvoir dizia que a fronteira entre cuidado e submissão é tênue, e quase sempre atravessada sem perceber. A relação deixa de ser espaço de encontro e passa a ser um campo de adaptação constante.
E o mais curioso é que essa limitação não nasce só do outro.
Muitas vezes nasce de nós mesmas, do medo de desagradar, de parecer “difícil”, de ser questionada ou perder o afeto.
O amor que expande não exige desaparecimento, e sim, exige presença.
E presença não é fusão; é maturidade: duas pessoas que respiram juntas, mas não com o mesmo pulmão.

Quando há liberdade, a relação cresce porque cada um cresce.
Quando há controle, a relação encolhe porque alguém está diminuindo.
Beauvoir não romantizava essa dinâmica. Ela sabia que liberdade tem custo. Mas também sabia que o custo de abrir mão de si é sempre maior.

Entre eu e você
Deusa, às vezes eu também me pego confundindo amor com acomodação.
Não por falta de consciência, mas por hábito mesmo, aquela tendência antiga de suavizar o que sinto para não criar atrito.
Quando percebo, já fiz concessões que ninguém pediu, já encolhi opiniões que eram minhas, já ajustei meu ritmo para caber no do outro.
E é justamente nessas horas que lembro da Beauvoir: o amor deixa de ser amor quando começa a cobrar que você desapareça.
E essa lembrança muda tudo.
Porque me devolve para mim, e me devolve para o vínculo de um jeito mais real.
Sem dramatizar, sem romantizar, só reconhecendo que liberdade e afeto caminham juntos, e que qualquer relação que pede o seu apagamento não é vínculo, é condicionamento.
Eu sigo aprendendo a sustentar quem eu sou mesmo quando dá medo.
E espero que você também se permita isso.
Laylä Föz 🌙