BRISA DA SEMANA
Deusa,
Hoje é Dia das Mães, e eu quero falar sobre uma mulher que não me pariu.

Talvez você esteja pensando nela agora:
A tia que te ensinou a rezar antes de dormir.
A avó que mostrou que o riso vem do diafragma, não da boca.
A primeira chefe mulher que te olhou nos olhos e disse: "isso aqui você consegue, e eu vou ficar perto enquanto você descobre como".
A amiga mais velha que apareceu na semana mais escura sem você nem precisar pedir.
Essas mulheres também são suas mães, elas só não te pariram.

A mãe-loba
Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres Que Correm com os Lobos, fala de uma figura que ela chama de mãe-loba, é a mulher mais velha que enxerga em você o que você ainda não enxergou, e te chama pra fora da toca.

Ela aparece em momentos específicos, geralmente quando você está prestes a se acomodar numa versão menor de si mesma.
A mãe-loba não te embala, ela te empurra com cuidado pra um território que você ainda não conhece, e fica por perto enquanto você aprende a andar lá.
Eu tive uma mãe-loba, não vou falar o nome, porque o ponto não é ela, o ponto é o gesto, mas vou contar a cena.

Eu tinha vinte e poucos anos, estava num momento em que dizia "eu acho que não dou conta" pra quase tudo.
Ela me ouviu numa tarde inteira, sem interromper, no fim, quando eu já tinha esvaziado o copo de tudo o que era medo, ela me disse uma frase muito curta. Tão curta que eu lembro até hoje:
"Você não precisa dar conta. Você precisa começar."
E foi como se alguém tivesse aberto uma janela num quarto que eu nem sabia que estava fechado.

A maternidade que não cabe na biologia:
A gente foi ensinada a achar que mãe é uma função única, que pertence a uma mulher só, e que essa mulher é definida por ter te carregado nove meses no corpo.
Mas a vida não funciona assim.
A vida funciona em camadas, e o feminino, na sua forma mais ancestral, sempre foi coletivo.
As mulheres da tribo cuidavam das crianças da tribo.
A bisavó ensinava o que a mãe ainda não sabia.
A vizinha mais velha era extensão da casa. Maternar era uma rede, não um ponto.
A modernidade isolou a mãe biológica num quarto sozinho com um bebê e disse: "se vira". E a gente, filha dessa modernidade, cresceu com uma ideia de mãe muito estreita, muito solitária, muito carregada de expectativa impossível.

Reconhecer as mães-loba é devolver a maternidade pro tamanho que ela sempre teve.

E pra quem não se tornou mãe biológica
Tem mulher lendo isso agora que escolheu não ter filho. Tem mulher que tentou e não veio. Tem mulher que perdeu. Tem mulher que ainda nem sabe.

Pra todas vocês: vocês também maternam.
Cada vez que você acolhe uma sobrinha que precisa de um colo que a mãe dela não consegue dar naquela semana, você materna.
Cada vez que você é a primeira chefe mulher de uma estagiária assustada e diz "calma, eu também já fui essa pessoa", você materna.
Cada vez que você é a amiga que aparece sem ser chamada, você materna.
Maternidade não é um diploma que se ganha no parto, mas é um gesto que se repete.
E uma das coisas mais bonitas que a gente pode fazer hoje é parar de medir nosso lugar pelo útero, e começar a medir pelo cuidado que a gente espalha.

Entre nós
Deusa, esse Dia das Mães eu queria te convidar pra uma coisa muito simples.
Pega o celular, daqui a pouco, e pensa numa mulher que foi mãe-loba sua.
Pode ser uma só. Pode ser três.
E manda mensagem pra ela.
Não precisa ser texto longo, não precisa ser elaborado. Pode ser só:
"Hoje é Dia das Mães e eu lembrei de você. Você foi mãe pra mim em [tal momento]. Obrigada."
Eu sei que parece pequeno, mas é exatamente o tipo de coisa que a gente adia a vida inteira esperando o "momento certo", e o momento certo é hoje, porque hoje ela ainda está viva pra ler.
Eu também caio nisso, sabe. Adio, deixo pra depois, acho que ela já sabe.
Mas saber e ouvir nominalmente são coisas diferentes. Ouvir "você foi mãe pra mim" tem um peso que nenhuma flor entrega.
Pergunta de fechamento, pra você levar pro café da tarde:
Quem é a mulher que te formou e que talvez você nunca tenha agradecido com essas palavras?
Vai e fala.
Enquanto dá tempo.
Com carinho,
Laylä Föz 🌙
