BRISA DA SEMANA

Deusa,

Tem uma palavra que eu trouxe do Peru e que não me larga mais.

Foi numa manhã no Vale Sagrado, aquela região de montanhas altas onde o ar é fino e o silêncio parece mais antigo que em qualquer outro lugar.

Uma mulher quéchua, dessas cujo rosto guarda o mapa de gerações, me ensinou, antes de a gente comer, a separar um pouco da comida e da bebida e oferecer à terra. Um gesto pequeno, quase invisível, mas cheio de intenção.

E ela me disse a palavra que organiza a vida inteira dos povos andinos: ayni.

Ayni, em quéchua e em aimará, é ajuda mútua.

Reciprocidade.

Mas é uma reciprocidade muito mais funda do que a nossa ideia de troca.

É a compreensão de que tudo na vida é uma corrente de dar e receber, e que a saúde, a fartura, o próprio equilíbrio do mundo dependem de a gente manter essa corrente girando.

A terra não dá de graça, e não cobra também

Aqui eu preciso ser honesta, porque a palavra virou moda em retiro e eu não quero te passar uma versão açucarada dela.

No dia a dia das comunidades andinas, ayni é, antes de qualquer coisa, troca de trabalho. Hoje eu vou capinar a sua roça, amanhã você vem capinar a minha. Eu ajudo a levantar o telhado da sua casa, você ajuda no meu plantio.

A dívida fica anotada na memória de todo mundo, sem papel, e devolver na mesma medida é questão de honra.

A antropóloga Catherine Allen, que viveu anos numa comunidade quéchua chamada Sonqo, escreveu em The Hold Life Has que essa troca é o que costura a vida ali: com as pessoas, com os mortos, com os montes, com a terra.

A parte com a Pachamama existe e é séria. Mas a palavra nasceu do braço e da roça, e é por isso que ela tem tanta força.

O que me pegou no conceito é que ele desmonta duas doenças muito nossas ao mesmo tempo.

A primeira doença é achar que a gente pode só receber. Viver tirando da terra, das pessoas, dos relacionamentos, do próprio corpo, sem nunca devolver nada.

A gente faz isso o tempo todo sem perceber: explora o próprio corpo até ele quebrar, suga a energia de quem ama sem repor, colhe da natureza como se ela fosse um estoque infinito.

O pensamento andino diz que isso rompe o ayni, e que tudo que rompe o ayni adoece, mais cedo ou mais tarde.

A segunda doença, e essa é a que mais pega nas mulheres, é o contrário: achar que a gente só pode dar.

Que o nosso valor está em quanto a gente serve, cuida, sustenta, se doa, sem nunca deixar espaço pra receber. Muita mulher que eu conheço domina a arte de dar e é completamente incapaz de receber.

Se recusa a pedir ajuda, se desconforta com um elogio, sente culpa quando descansa, transforma o próprio esgotamento em prova de amor.

Ayni diz que as duas coisas quebram a corrente.

Que receber sem devolver empobrece o mundo, mas dar sem receber também, porque interrompe o fluxo do outro lado.

A reciprocidade é sobre manter a vida circulando, e pra isso é preciso saber fazer os dois gestos: estender a mão que oferece e abrir a mão que acolhe.

Pachamama, a mãe que é chão

Os povos andinos chamam a terra de Pachamama. Pacha é o mundo e o tempo, juntos numa palavra só; mama é mãe. E tratam ela como mãe viva, com quem se mantém uma relação de ayni diária. Antes de plantar, se agradece. Antes de colher, se pede licença. Depois de receber, se devolve, nem que seja um gole, nem que seja uma folha.

E eu fico pensando como a gente, na cidade, perdeu por completo essa noção de que pertence a uma corrente maior. A gente consome sem gratidão, recebe sem reverência, come sem saber de onde veio, bebe água sem lembrar que ela é viva. Vivemos como se estivéssemos sozinhas no topo de tudo, quando na verdade somos só um elo, sustentadas o tempo inteiro por incontáveis mãos, raízes, chuvas e trabalhos que a gente nem vê.

Reaprender o ayni é, no fundo, reaprender a humildade de quem sabe que recebe muito, e a dignidade de quem tem algo a devolver.

Um exercício de reciprocidade pra essa semana

Faz um pequeno inventário de ayni na sua vida essa semana. Duas perguntas só, respondidas com honestidade.

A primeira: onde eu ando só recebendo, sem devolver? De quem eu ando sugando cuidado, atenção, energia, sem repor? O que eu ando tirando do meu corpo, do meu tempo, da minha casa, da terra, sem nenhum gesto de gratidão ou reposição?

A segunda, e presta atenção especial nessa: onde eu ando só dando, sem deixar receber? Onde eu me recuso a pedir ajuda, a aceitar cuidado, a descansar, a ser sustentada por alguém, mesmo quando estou no limite?

E aí, escolhe um gesto de reequilíbrio pra cada lado. Um lugar onde você vai devolver alguma coisa que anda só recebendo. E um lugar, esse é o mais difícil, onde você vai deixar receber alguma coisa que anda só dando. Pedir aquele favor. Aceitar aquela ajuda. Descansar sem culpa, como quem honra a própria terra interna.

Entre nós

Deusa, eu sou, historicamente, uma exímia doadora e uma péssima recebedora.

Sei cuidar.

Sei sustentar.

Sei estar presente pra quem eu amo.

Mas na hora de receber, eu travo.

Sinto que estou devendo, que estou incomodando, que preciso retribuir imediatamente pra não ficar em dívida.

Demorei pra entender que essa minha suposta generosidade tinha um fundo de orgulho, o orgulho de quem prefere ser sempre a forte, a que dá, a que não precisa, porque precisar assusta, porque receber exige uma entrega que dar não exige.

O ayni me curou um pouco disso.

Me ensinou que recusar receber é tão desequilibrado quanto recusar dar, e que às vezes o gesto mais generoso que a gente pode fazer por alguém é deixar essa pessoa cuidar da gente. Que abrir a mão pra receber também é um presente pro outro.

Foi no Peru, nesse encontro com a sabedoria andina viva, que eu senti isso no corpo pela primeira vez.

A pergunta que eu te deixo pra esse domingo: Onde, na sua vida, a corrente do dar e receber parou de girar, e qual dos dois gestos, oferecer ou acolher, é o que anda mais difícil pra você?

Com carinho,

Laylä Föz 🌙