BRISA DA SEMANA

Deusa, o que você faz quando sente raiva?

Provavelmente uma das três coisas: engole, explode, ou se envergonha de sentir.

Qualquer uma das três, você não escutou.

E a raiva, quando não é escutada, não vai embora.

Ela desce.

Vira tensão no ombro. Vira ansiedade sem causa aparente. Vira aquela irritação crônica de baixa intensidade que a gente chama de "estresse" porque o nome "raiva" parece pesado demais.

Mas raiva é informação.

E como toda informação, ela vem te dizer alguma coisa. O problema não é sentir raiva. O problema é nunca parar pra perguntar o que ela está dizendo.

Raiva como proteção

A raiva é, no fundo, uma resposta de proteção.

Ela aparece quando algo está errado.

Quando um limite foi cruzado. Quando uma injustiça aconteceu. Quando você precisou de algo e não recebeu. Quando disseram ou fizeram algo que desrespeitou a sua existência.

Ela é o corpo dizendo: isso aqui não está ok.

O problema é que a maioria das mulheres foi ensinada a não ouvir esse sinal.

A gente foi criada com a ideia de que raiva é feiura.

Que uma mulher brava é difícil, histérica, exagerada. Que quem sente raiva com frequência é problemática. Que a virtude feminina está na calma, mesmo quando a calma é uma mentira que a gente sustenta pra não incomodar.

E aí vem o custo real disso.

Quando você engole a raiva vezes suficientes, você perde o fio de volta pros seus próprios limites.

Começa a não saber mais quando as coisas te fazem mal, porque treinou tão bem pra não sentir que o sensor foi desligado.

Isso é dessensibilização…

O que a raiva está perguntando

Audre Lorde — poeta, ativista, mulher negra — escreveu um texto que ficou famoso: The Uses of Anger (Os Usos da Raiva).

E ela disse algo que eu quero que você leia com calma: raiva não é destrutiva por natureza. A maneira como você lida com ela pode ser.

A raiva em si, o sinal, o sentimento, a informação, é neutra. Ela está apontando pra algo.

O que você faz com ela é que pode ser construtivo ou destrutivo.

Lorde também dizia que desperdiçar raiva, engolir, reprimir, redirecionar pra si mesma, é uma perda de energia que poderia ser usada pra mudar as coisas que causaram a raiva.

Quando você sente raiva, a pergunta certa não é "por que estou sendo assim?".

É: o que essa raiva está me dizendo que não está ok?

Pode ser que alguém cruzou um limite que você nunca disse em voz alta, mas que sabe que existe.

Pode ser que você está dando mais do que está recebendo numa relação ou situação, e o seu sistema percebeu antes da sua cabeça.

A raiva raramente está errada sobre o fato de que algo não está bem.

Ela pode estar exagerada na proporção, mas ela está respondendo a algo real.

A diferença entre escutar e explodir

Escutar a raiva não é explodir.

São coisas opostas…

Explodir é quando a raiva foi acumulada por tanto tempo sem atenção que saiu do controle.

Quando você grita por algo pequeno porque o pequeno foi a última gota num copo que já estava cheio.

Escutar é parar, antes de explodir ou engolir, e perguntar: o que está acontecendo aqui? Não com julgamento, e sim com curiosidade.

Tem uma prática que eu acho útil: quando sentir raiva, antes de reagir, fazer uma pausa de trinta segundos e se perguntar:

  • Qual limite foi cruzado?

  • Qual necessidade não foi atendida?

  • O que eu estaria dizendo se não tivesse medo da reação do outro?

Essas perguntas não suprimem a raiva. Elas a transformam em informação utilizável.

E aí você pode escolher: dizer algo, colocar um limite, reconhecer que a situação te faz mal, tomar uma decisão diferente.

Isso é assertividade, usar a raiva pra o que ela existe, ou seja, proteger o que é seu.

Raiva secundária: quando ela é máscara

Tem uma coisa importante sobre raiva que nem todo mundo sabe.

Às vezes a raiva que você sente não é o sentimento primário. É o que aparece por cima de outro sentimento mais difícil de admitir.

Raiva por cima de tristeza. Raiva por cima de medo. Raiva por cima de vergonha.

Quando alguém que você ama te decepciona, por exemplo, o primeiro sentimento pode ser tristeza, dor pelo não recebido, pelo não correspondido. Mas tristeza é vulnerável e vulnerabilidade expõe.

Então antes que a tristeza apareça completamente, a raiva surge.

Ela é mais confortável, isso é, dá mais sensação de controle.

Isso não significa que a raiva seja mentira.

Significa que há camadas.

Soraya Chemaly, em Rage Becomes Her, fala sobre como mulheres foram treinadas pra sentir raiva apenas como emoção secundária, e como isso contribui pra não acessar o que está realmente acontecendo dentro delas.

Quando você pergunta o que está embaixo dessa raiva, às vezes encontra uma mágoa que precisava de atenção muito antes.

E aí a raiva cumpre uma função diferente: ela te levou até a ferida real.

Cuidar de si é o ato mais político

Audre Lorde também escreveu: "Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato político."

Ela disse isso num contexto muito específico, como mulher negra num sistema que historicamente ignorou o sofrimento das mulheres negras e as tratou como fontes de serviço sem direito à própria dor.

Mas o princípio vale mais amplamente.

Quando você cuida da sua raiva, quando para pra ouvi-la em vez de engoli-la ou ignorá-la, você está fazendo algo que alguém, em algum momento, tentou te ensinar que era demais, que era egoísmo, que era drama.

Não é.

É honestidade com o próprio sistema nervoso. É o começo de saber o que você suporta e o que não suporta, e de ter vocabulário pra comunicar isso.

A raiva não é o inimigo.

A raiva que nunca foi escutada é.

Porque essa fica.

Vira a pessoa que você se torna quando está exausta demais pra filtrar…

A raiva escutada, perguntada e compreendida, pode se tornar a clareza que você precisa.

Entre nós

Eu levo um tempo pra perceber quando estou com raiva.

Sou muito boa em racionalizar antes de sentir.

Em encontrar a "perspectiva do outro" antes de honrar a minha própria. Em minimizar o que senti antes de admitir que senti.

Mas aprendi, do jeito difícil, que a raiva que eu não reconheço aparece em outros lugares.

Na forma como falo com quem não merece.

Na irritação sem causa aparente.

Na sensação de estar arrastando algo pesado sem saber o que é.

Quando paro e pergunto "o que está acontecendo aqui?", não pra resolver, só pra ouvir a resposta geralmente existe. E geralmente é mais simples do que eu imaginava: algo não estava ok, e eu estava fingindo que estava.

Sua raiva está dizendo alguma coisa.

Você não precisa explodir.

Só precisa parar por um momento e perguntar: o que você está tentando me dizer?

Laylä Föz 🌙

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