BRISA DA SEMANA

Deusa,

Julho começou, e, você já deve ter recebido uns três convites de viagem, cinco "vai aproveitar onde?", duas planilhas de roteiro e uma vontade meio esquisita de fingir que tem plano.

E se, dessa vez, a resposta fosse simplesmente: ficar?

Sem passagem comprada. Sem retiro fechado. Sem responder o grupo da família dizendo pra onde vai.

Parece pouco, mas talvez seja a coisa mais corajosa que alguém pode fazer num mês que exige agenda.

O luxo invisível

Tem uma frase do Carl Honoré, jornalista canadense que escreveu In Praise of Slow depois de quase atropelar o próprio filho com pressa, que me marcou:

A velocidade virou identidade. Quanto mais ocupada uma pessoa parece, mais validada ela se sente.

Olha que estranho.

A gente começou a usar a agenda cheia como prova de existência.

"Tô cheia, tô viva." E quando aparece uma janela vazia, vem o susto, a culpa e o impulso de preencher.

Como se o silêncio fosse vergonha.

Jenny Odell, num livro chamado How to Do Nothing, escreve que a atenção virou commodity. Tudo briga pelo seu olhar.

Férias de julho, então, viraram extensão disso: tem que ir, tem que postar, tem que voltar com história.

Mas tem outro caminho, e, ele não cabe em foto.

O que aparece quando você não enche:

Quando você decide que um período vai ser de ficar, em vez de ir, começa a perceber coisas que tinham passado batido o ano inteiro.

  • A luz de uma tarde na cozinha.

  • A vontade de ler um livro inteiro num dia, sem pular pra outro.

  • Uma conversa que dura três horas porque ninguém precisa ir embora.

Isso não é preguiça, é na verdade, presença.

E aí vem uma percepção importante: a pressa rouba a textura.

A vida acelerada acontece, mas você não está nela. É o corpo num lugar e a cabeça em três outros, e no fim você não viveu nada direito, só atravessou.

Slow não é sobre fazer menos por princípio. É sobre habitar o que você faz.

O direito à lentidão

A gente foi educada a achar que produtividade é virtude e descanso é recompensa.

Trabalha pra merecer, descansa quando puder, depois volta a correr.

Mas talvez o jogo seja outro.

Talvez o descanso não seja recompensa. Seja matéria-prima. É dali que vem ideia boa, vínculo de verdade, escuta que cura, decisão que dura.

Quando você para, não está parando da vida. Está parando pra ela poder te alcançar.

Entre nós

Deusa, eu também caio nessa.

Mais do que gostaria.

Tem semana que eu olho minha agenda e não reconheço como ela ficou daquele jeito.

É reunião colada em reunião, mensagem que vira tarefa, tarefa que vira cobrança interna, e, quando chega a sexta, eu sinto que vivi muito, mas não sei direito o quê.

Esse julho, pelo menos uma vez na semana, eu quero te convidar pra fazer um experimento simples.

Abre uma janela de 3 horas no calendário.

Qualquer dia, não precisa ser fim de semana, pode ser quarta de tarde.

Escreve do lado: "Sem agenda."

E quando chegar a hora, não preenche.

Deixa em branco mesmo e vê o que aparece.

Pode ser tédio. Pode ser sono. Pode ser uma ideia que estava esperando há meses pra ter espaço de subir.

O que aparecer, aparece. Não é tarefa.

É só você se lembrando que existe sem fazer nada.

E isso, sozinho, já muda muita coisa.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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