BRISA DA SEMANA
"Num galho nu, um corvo se empoleira — entardecer de outono." — Matsuo Bashō
Deusa, o que você está deixando passar enquanto tenta segurar?
Eu estava num parque em Kyoto quando os bordos ficaram vermelhos.

As folhas de bordo japonês ficam vermelhas, laranja, douradas em outubro e novembro, e as pessoas saem de casa especialmente pra vê-las.
Essa prática tem nome: Momijigari. A caça às folhas de outono.

E eu entendi, naquele parque silencioso, por que as pessoas faziam isso há séculos.
Não é sobre as folhas, é sobre aprender a amar o que está de passagem.

Mono no Aware — a ternura diante do que passa
Os japoneses têm uma expressão pra esse sentimento, ma expressão que não tem tradução exata em português.
Mono no Aware (物の哀れ).

Literalmente: "a tristeza das coisas". Mas essa tradução não faz jus. Porque não é tristeza pesada, é uma espécie de ternura melancólica diante de tudo que é passageiro.
É a beleza de uma tarde que está terminando, como o último dia de uma viagem ou a última vez que você vai estar num lugar antes de ele mudar pra sempre…
Mono no Aware não é tristeza que pede consolo. É uma tristeza que você abraça, porque sabe que ela só existe porque aquilo que passa valeu a pena ter acontecido.
Você não sente saudade do que não importou.
Numa cultura que nos treina pra perseguir permanência, o relacionamento pra sempre, o emprego estável, o corpo que não muda, o amor que nunca diminui, o Japão oferece uma perspectiva radicalmente diferente:
O que é belo é belo justamente porque vai acabar.
As cerejeiras duram sete dias.
Só sete.
E por isso as pessoas param o que estão fazendo, atravessam cidades, ficam embaixo delas olhando pra cima. Se durassem o ano todo, ninguém daria atenção.

Wabi-Sabi e a beleza do imperfeito
Mas o Japão vai além do passageiro, ele também tem uma filosofia pro imperfeito.
Wabi-Sabi é a estética da incompletude, da assimetria, do que está desgastado pelo tempo.

Uma tigela rachada. Uma parede com musgo. Uma flor que já passou do auge.
Na estética ocidental, isso seria descartado. No Japão, pode ser considerado o ápice da beleza. Porque o desgaste conta uma história, e a imperfeição é marca de que aquilo existiu no tempo real, foi usado, foi vivido.
E tem um passo além.
Kintsugi — a arte de reparar cerâmica quebrada com ouro. Em vez de esconder a rachadura, você a destaca. A fratura se torna o elemento mais belo da peça.

Pensa no que isso diz sobre as nossas próprias rachaduras.
Não o que você cobriu com camadas de performance.
Mas o que foi quebrado e reparado, isso vira o que te faz única.

A cultura do "pra sempre" que nos cansa
A gente vive numa cultura que vende permanência.
O casamento "pra sempre".
O amor que "nunca muda".
O sucesso que "chegou pra ficar".
A amizade que "vai durar a vida inteira".
E quando as coisas mudam, porque as coisas sempre mudam, a gente sente que falhou. Como se a duração fosse a medida do valor.
Mas Bashō não media as coisas assim.

Nos haikais dele, um momento de contemplação no fim do dia era suficiente pra existir, pra ser registrado, pra ser transmitido por séculos.
"Uma velha lagoa, uma rã pula, o som da água."
E eu fiquei pensando em quantas experiências bonitas eu deixei de sentir plenamente porque estava preocupada com quando iriam acabar.
Quantas conversas boas eu perdi porque parte de mim já estava calculando como manter aquela conexão. Quantos momentos de paz interior eu abreviei com a ansiedade de que a paz fosse embora.
O que você está deixando passar enquanto tenta segurar? Pense sobre isso!

Há uma tristeza leve que não pede consolo
Eu preciso te contar uma coisa que aconteceu no meu último dia em Kyoto.
Eu estava no Fushimi Inari, aquele templo com milhares de portões torii laranja, caminhando na subida que leva até o topo da montanha.

Era fim de tarde. A maioria dos turistas já tinha descido.
E em algum momento, eu estava sozinha. Só os portões, a floresta, a luz ficando dourada entre as árvores.
Eu sabia que era meu último dia.
Que no dia seguinte, aquilo tudo viraria lembrança.
E em vez de tentar guardar, em vez de fotografar cada ângulo, de tentar carregar o momento na memória com força, eu simplesmente parei.
Fiquei parada.
Respirei.
Deixei ser o que era.
E aí veio aquele sentimento que os japoneses chamam de Mono no Aware: uma tristeza leve, terna, que não pedia consolo. Que só dizia: que bom que isso existiu.
Não é possível ter esse sentimento sobre algo que você está tentando controlar. Só dá pra sentir assim quando você solta.

Entre nós
Tem uma coisa que a viagem ao Japão me ensinou e que eu ainda estou aprendendo a aplicar na vida cotidiana. Que a impermanência não é o inimigo da alegria, ela é a condição dela.
A alegria plena só é possível quando você aceita que a coisa vai acabar, e ama mesmo assim.
Quando você para de tentar capturar e começa a estar presente.
Isso vale pra praticamente tudo, relacionamentos, fases da vida, versões de você mesma que já foram e foram bonitas e merecem ser lembradas com ternura, não perseguidas com desespero.
E se isso te chama, estar num lugar como esse, entre mulheres, nesse tipo de presença, vem comigo, pois preparamos uma viagem incrível para o Japão.
Laylä Föz 🌙