BRISA DA SEMANA

Deusa,

Esses dias, acordei cedo hoje, antes do sol nascer, e fui surfar.

Água gelada, oito graus de sensação térmica na pele molhada, mãos doendo dentro da luva de neoprene.

E, entre uma onda e outra, esperando a próxima série, eu pensei: a maioria das pessoas que eu conheço está cansada.

Não cansada de uma noite mal dormida. Cansada de fundo, daquele cansaço que não passa com fim de semana.

E eu acho que entendi por quê…

A gente tá tentando atravessar o inverno fingindo que ainda é verão.

A árvore que parece morta

Olha pra uma árvore agora, em junho.

A maioria das frondosas perdeu as folhas - claro, a depender da região.

Os galhos parecem secos e de fora, ela parece morta.

Mas qualquer botânica vai te explicar que ela não está morta, está conservando energia. Toda a vitalidade dela desceu pra raiz e tá esperando, em silêncio, o momento certo de subir de novo.

Se você tentasse forçar a árvore a brotar agora, em pleno solstício de inverno, ela morreria de verdade…

A natureza inteira tá nesse ritmo.

Os bichos hibernam.

Os rios diminuem o fluxo.

Os pássaros migram.

O sol literalmente fica menos tempo no céu.

E nós, mulheres, fomos ensinadas a ignorar tudo isso…

A continuar produtivas, sociáveis, sorridentes, "high energy" o ano inteiro. Como se o corpo não tivesse sazonalidade. Como se a alma não pedisse recolhimento. Como se descansar fosse fraqueza moral…

O que Pema Chödrön escreveu

Pema Chödrön, monja budista que escreve sobre os momentos difíceis da vida, tem uma frase que eu releio toda vez que entro em junho.

Ela diz que as estações nos lembram que tudo é impermanente.

Inclusive o cansaço de hoje, a alegria de ontem e o desconforto de estar parada quando o mundo todo pede aceleração.

Pema fala muito sobre a prática de "estar com o que é". Não consertar, não fugir, não decorar. Estar com.

E o inverno, Deusa, é o grande professor desse estar com.

Estar com o cansaço sem precisar transformá-lo em produtividade.

Mary Oliver, num poema que eu amo chamado Wild Geese, escreveu uma linha que parece ter sido feita pra essa estação.

Ela diz que você não precisa ser boa, não precisa atravessar o deserto de joelhos se penitenciando. Você só precisa deixar o animal macio do seu corpo amar o que ama.

E o animal macio do nosso corpo, em junho, ama a brasa. O cobertor. A xícara quente. A janela fechada. O livro no sofá. A cama cedo.

Como construir o seu ritmo de inverno

Você não precisa mudar a vida inteira. Reconhecer que junho pede um ritmo diferente de março, e dar ao corpo pelo menos alguns espaços pra ele operar nesse ritmo.

Algumas coisas que fazem diferença:

  • Reduza o que for possível reduzir.

Se você tem flexibilidade sobre quantas saídas aceita por semana, experimente cortar uma ou duas. Se pode escolher entre um evento social e uma noite em casa, permita que a casa ganhe mais vezes.

  • Cozinhe devagar.

Caldos, raízes assadas, sopas que pedem tempo, chás que fervem por uma hora. O ato de cozinhar devagar muda o ritmo do corpo inteiro. É meditação sem precisar sentar de pernas cruzadas.

  • Durma um pouco mais.

Parece óbvio, mas a gente resiste ao sono como se ele fosse perda de tempo. Em junho, o sol nasce mais tarde e se põe mais cedo. Seu corpo quer acompanhar isso. Deixe.

  • Pare de semear.

Se puder, junho é mês de finalizar e descansar do que já foi plantado nos meses anteriores. Adiar projetos novos, parcerias novas, compromissos novos. Fechar ciclos em vez de abrir. Funciona como uma faxina silenciosa.

  • Troque o estímulo pelo silêncio.

Uma noite sem série. Um trajeto sem podcast. Um banho longo sem celular por perto. Parece pouco, mas esses pequenos espaços vazios são onde o corpo finalmente processa o que ficou acumulado.

E se a sua rotina é mais fechada, com hora pra entrar e hora pra sair, os microgestos continuam possíveis.

Trocar uma noite de happy hour por banho longo e cama cedo.

Trocar a corrida de alta intensidade por uma caminhada lenta no domingo.

Trocar o terceiro café da tarde por um chá quente, sentada de verdade. E assim por diante.

São pequenos gestos de saudação ao ritmo da estação.

E quando agosto chegar, você chega inteira.

Entre nós

Deusa, eu também caio nas armadilhas.

Tem semana que eu me pego tentando atravessar junho como se fosse março. E o corpo sempre cobra. Sempre.

Aí eu me lembro da Pema, da árvore sem folhas, da raiz silenciosa lá embaixo guardando energia.

E volto.

Qual é o gesto pequeno de inverno que o seu corpo está pedindo essa semana, e que você ainda não permitiu?

Porque o inverno prepara a travessia

Junho é estação de recolhimento, mas o calendário do ano segue, e em agosto a gente atravessa a outra margem.

De 6 a 12 de agosto de 2026, vou conduzir uma jornada que vinha sonhando há anos: Águas Amazônicas. Seis dias num barco-casa pelos rios Amazonas e Tapajós, com a Ma Montoro como co-host.

São dias de ritual com argila medicinal, oficina de tecelagem com mulheres ribeirinhas, navegação por igarapés ao amanhecer, focagem de jacarés ao luar.

Tudo costurado por uma curadoria de cuidado, silêncio e expansão.

O recolhimento de junho, o ritmo lento do corpo agora, vai te entregar pra agosto pronta pra essa travessia.

  • Investimento: R$ 8.500, em até 8x de R$ 1.100 no PIX. Restam apenas 12 vagas, aproveite.

Se algo em você se mexeu lendo, dá uma olhada:

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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