BRISA DA SEMANA
Deusa,
Hoje é o dia mais curto do ano no nosso hemisfério.
O sol vai aparecer um pouco mais tarde, sair um pouco mais cedo, e em algum ponto da tarde a luz vai começar a se despedir antes do que a gente quer…

Solstício de inverno.

Em quase toda cultura ancestral, esse era um dia ritualizado.
Noite de fogueira, vigília, recolhimento coletivo. As pessoas se reuniam pra atravessar a escuridão máxima juntas, sabendo que dali em diante a luz começaria a voltar, dia a dia, devagar.

Mas eu não quero te escrever uma carta sobre "depois da escuridão sempre vem a luz".
Não hoje.
Hoje eu queria escrever sobre a escuridão sem pressa de sair dela.

Os dias em que tudo desabou
Deusa, você já teve uma fase em que aparentemente estava tudo bem, mas por dentro nada fazia sentido?
Trabalho rodando, agenda cheia, corpo funcionando, sorriso na hora certa.
Mas à noite, na hora de deitar, vinha aquela coisa que não cabe em palavra. Um cansaço que não vinha do dia. Uma desorientação grande, como se você tivesse acordado dentro da vida de outra pessoa.
Muitas de nós já passaram por isso. Algumas estão passando agora.
E o mais difícil não é o colapso em si. É que ele é silencioso.

Não vem com manchete, não vem com luto nomeado, não vem com um evento que explica tudo.
Vem como uma rachadura lenta, de dentro pra fora, numa estrutura que parecia sólida: profissional, afetiva, identitária.
E a primeira reação é tentar consertar rápido.
Preencher, resolver e voltar ao normal.
Mas talvez o "normal" fosse exatamente o problema.

O que Carl Jung e a “sombra”:
Carl Jung, psiquiatra suíço que dedicou a vida a entender as camadas profundas da psique, tinha um nome pra esse território.
Ele chamava de sombra.

A sombra, pra Jung, é tudo aquilo que a gente empurrou pro fundo porque, em algum momento, aprendeu que não podia ser.
A raiva que era inadequada, o desejo que era proibido, a tristeza que era exagerada, a ambição que era feia, a vulnerabilidade que era frágil demais.
A gente vai amontoando essas partes ao longo dos anos.
E, segundo Jung, elas não desaparecem porque a gente não olha.
Pelo contrário: ficam ali, no escuro, ganhando força. E, quando menos esperamos, elas batem na porta. Geralmente em forma de crise.
E o que Jung dizia, e que demoramos para entender de verdade, é que o trabalho de sombra não é exorcizar essas partes.
É descer até elas. Reconhecê-las. Dar nome. Dar lugar.
A vitalidade que a gente cortou pra caber está justamente lá, na parte que a gente recusa.

Joan Halifax e a presença mais difícil
Joan Halifax é monja zen e uma das pessoas que mais trabalhou com cuidado paliativo nas últimas décadas. Ela acompanhou centenas de pessoas no fim da vida.

Num livro chamado Standing at the Edge, ela escreve algo que me atravessou.

Ela diz que a presença mais profunda só nasce na presença mais difícil.
Que o que a gente desenvolve quando consegue ficar com o intolerável, sem fugir, sem narcotizar, sem maquiar, é uma qualidade de atenção que muda tudo.
A escuridão não é o oposto da casa. A escuridão também é casa.
É um cômodo que existe dentro da gente, que a vida vai exigir que a gente entre algumas vezes. E entrar não é fracasso. Entrar é trabalho.

Entre nós
Deusa, eu sei que tem gente lendo essa carta hoje em pleno período escuro.
Se for o seu caso, deixa eu te falar uma coisa com toda a delicadeza que cabe num email:
A escuridão não está te punindo.
Ela não é falha sua.
Você não fez nada de errado pra estar aí.
Mas você também não precisa atravessar isso sozinha.
Terapeuta, médica, amiga próxima, grupo de apoio, qualquer mão estendida importa. A presença mais difícil que Joan Halifax descreve não é solidão obrigatória, é o oposto: é estar com o que dói, sustentada por gente que sabe segurar.
E se você está num momento luminoso, lendo essa carta com café e cobertor, te peço uma coisa: lembra de quem ainda está no escuro.
Manda mensagem. Liga sem motivo. Convida pra um chá. Quem está no fundo muitas vezes não consegue pedir, mas reconhece quando a mão chega.
Qual é a parte sua que ainda mora no escuro pedindo pra ser olhada?
E quem é a pessoa que pode segurar a sua mão enquanto você abre essa porta?
Com carinho,
Laylä Föz 🌙