BRISA DA SEMANA

Deusa,

Junho começou e, com ele, toda aquela enxurrada de propaganda do amor "minha cara metade", "completou-me", "sem você eu não sou nada".

E eu fico pensando…

Em que momento a gente engoliu que precisa de metade pra ser inteira?

Não sei se é só comigo, mas tem semanas que essa história parece quase agressiva.

Como se o amor maduro fosse uma diluição de quem você é pra caber em quem o outro precisa que você seja.

Duas solidões que se saúdam

Nas Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke escreveu uma frase que me visitou várias vezes ao longo da vida.

Ele disse que o amor é a tarefa mais difícil que nos é dada, a obra mais alta que existe, e que ele consiste em "duas solidões que se protegem, se limitam e se saúdam".

Leia de novo, devagar e duas solidões.

Que se protegem, que se limitam, e que se saúdam.

Não é dissolução. Não é aquele "a gente é um só". É o cuidado mútuo da diferença.

É reconhecer que dentro de cada um existe um espaço que ninguém mais pode habitar, e que amar, de verdade, é sustentar esse espaço no outro mesmo quando dói não ser convidada pra dentro dele.

O amor que bell hooks descreveu

Ela diz que a gente confundiu amor com sentimento, quando amor é, antes de tudo, uma prática.

Uma escolha diária.

Um verbo que envolve cuidado, responsabilidade, respeito, conhecimento e compromisso, todos juntos, ao mesmo tempo.

E aqui mora a chave: não dá pra praticar respeito por alguém cuja inteireza você não enxerga.

Não dá pra cuidar de alguém que você está tentando moldar pra caber numa expectativa sua.

Não dá pra conhecer alguém que você precisa que continue exatamente igual pra se sentir segura.

O amor que rouba liberdade não é amor.

É medo bem vestido.

O teste silencioso

Tem um teste silencioso que eu costumo fazer comigo mesma, em qualquer relação importante.

Funciona assim.

Eu me pergunto: nessa relação, eu estou ficando mais eu, ou estou ficando menos?

Porque relação saudável expande.

Mesmo quando confronta, mesmo quando exige negociação, mesmo quando dói.

No fim, ela te entrega de volta pra você mesma, mais inteira do que antes.

Já a relação que rouba liberdade faz o oposto.

Ela diminui. Recorta. Pede que você guarde algumas partes de você no fundo do armário, "só por hoje", e esse "só por hoje" vira ano.

Você começa a se censurar antes de falar. Começa a evitar temas. Começa a pedir desculpas por gostar do que gosta. Começa a esquecer o som da própria voz.

E quando percebe, a inteireza virou contorno fino, quase apagado.

Entre nós

Eu também já confundi as coisas, Deusa.

  • Já achei que amar era abrir mão.

  • Já me convenci de que não pedir era um ato generoso, quando no fundo era medo de não caber.

  • Já vesti expectativa de capa de altruísmo e demorei pra entender o golpe.

E o que mudou foi simples e difícil ao mesmo tempo: comecei a praticar o amor como Rilke descreveu.

Saudar o outro como uma solidão diferente da minha.

Reconhecer que ele tem um silêncio, um sonho, um caminho que não me pertence, e que a melhor coisa que eu posso fazer é não invadir.

Estranho como, quanto menos eu tentei dissolver a fronteira, mais o vínculo cresceu.

Deusa, e você? O que mora hoje na sua relação mais importante: fusão ou saudação? E se for fusão, o que vocês dois precisariam soltar pra começar a respirar de novo?

Um convite simples pra essa semana

Sem produto, sem link, somente um exercício.

Escolhe uma pessoa que você ama.

Pode ser parceiro, mãe, amiga, irmã ou filho.

  • Pega papel e caneta, não faz no celular.

E escreve uma carta descrevendo o que você admira na inteireza dela.

Não no que ela faz por você. Não no que ela representa pra sua vida. Mas em quem ela é quando você não está olhando.

Depois decide: envia ou guarda. Os dois caminhos têm valor.

A carta não é pra ela.

É pra você lembrar que amar é, antes de tudo, ver o outro inteiro.

E que enxergar inteireza é treino.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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