BRISA DA SEMANA

Como a vida cotidiana se torna a obra que estamos construindo sem perceber

A gente costuma falar de criação como algo separado da vida, que criar parece coisa de artista, de quem escreve livros, pinta telas ou compõe músicas.

Como se o ato criativo começasse apenas quando existe uma obra visível, algo que pode ser mostrado, avaliado ou reconhecido.

Mas essa separação é ilusória.

Porque, antes de qualquer produção artística, existe uma criação muito mais constante e silenciosa acontecendo, isso é, a forma como cada pessoa constrói a própria vida.

E, talvez, seja por isso que a gente esqueça de algo essencial: a nossa vida inteira é uma obra em andamento.

Não no sentido romântico, bonito ou inspirador, no sentido prático mesmo. A vida vai ganhando forma a partir das escolhas feitas, das escolhas adiadas e também das escolhas que deixamos que outros façam por nós.

Criar não é produzir, é conduzir

Criar não começa quando algo extraordinário acontece, mas começa no modo como a vida é conduzida no dia a dia.

A forma como você organiza o seu tempo, o tipo de relação que sustenta, o que você aceita para não gerar conflito, o que você empurra para depois, o que você normaliza mesmo quando incomoda.

Tudo isso vai moldando a experiência de viver.

As escolhas deixam marcas, as repetições se tornam padrão, e até o que você cala molda o caminho.

Mesmo quando parece que nada está sendo decidido, algo está sendo construído ali. Não existe neutralidade na forma de viver. O automático também cria forma.

A obra que se faz no cotidiano

A maior parte da criação da vida não acontece nos grandes acontecimentos, mas no cotidiano. Nos acordos silenciosos que a gente faz consigo mesma.

No ritmo acelerado que vira regra.

Na relação que se mantém mais por hábito do que por presença.

No limite que é empurrado até desaparecer.

É assim que a vida vai ganhando contorno, não de forma dramática, mas constante. E, muitas vezes, só depois de muito tempo surge a pergunta: como cheguei aqui?

A resposta quase nunca é um evento isolado, é o acúmulo de pequenas decisões não revisitadas.

Quando a autoria é terceirizada

Em algum ponto, muita gente deixa de se sentir autora da própria vida, não por incapacidade, mas por cansaço, medo ou excesso de expectativa externa.

A vida passa a ser resposta.

Resposta ao que pedem, ao que esperam, ao que parece mais seguro naquele momento, e, isso não costuma gerar um colapso imediato. Pelo contrário, tudo segue funcionando.

Nada está exatamente errado.

Mas algo começa a perder vitalidade.

Quando a autoria escapa das mãos, a vida continua andando, mas já não parece tão própria, é como se, o roteiro estivesse sendo escrito em outro lugar.

Criar não é controlar

Assumir o ato criativo da própria vida não significa controlar tudo ou ter clareza absoluta sobre cada passo.

Criar é estar presente nele.

É perceber quando algo deixou de fazer sentido e ter coragem de ajustar o traço enquanto ainda há movimento.

É aceitar que a obra passa por fases confusas, escolhas provisórias, tentativas que só fazem sentido depois.

Entre nós

Já houve momentos em que percebi que estava vivendo mais no modo execução do que no modo presença.

Sustentando demandas, cumprindo papéis, mantendo estruturas.

Nada desmoronava, mas também nada respirava muito.

Lembrar que a vida é uma obra não me trouxe peso, trouxe responsabilidade.

A responsabilidade de escolher com mais cuidado, de revisar caminhos, de não deixar tudo no automático por tempo demais.

Talvez o maior ato criativo não seja mudar tudo de uma vez.

Talvez seja parar, olhar para o que está sendo construído e perguntar, com honestidade, se você ainda quer assinar essa obra.

Porque ela segue em andamento, e, gostando ou não, você está nela.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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