BRISA DA SEMANA

Deusa,

Você já reparou que tem um tipo de cansaço que fim de semana nenhum cura?

É aquele cansaço estranho de quem dormiu oito horas e acordou exausta. De quem tirou férias e voltou tão vazia quanto foi.

De quem passou o domingo inteiro em casa, sem fazer nada de pesado, e mesmo assim chegou à noite com a sensação de ter sido atropelada por dentro.

Um cansaço que mora em outro lugar, mais fundo que o corpo, e que por isso não obedece à lógica simples de que basta parar pra recuperar.

Eu convivi anos com esse cansaço sem entender o que ele era. Até ler um filósofo que colocou nome nele com uma precisão que me deu, ao mesmo tempo, alívio e um leve susto.

A sociedade que adoeceu de si mesma

O filósofo se chama Byung-Chul Han. Nasceu em Seul, mora em Berlim, e escreveu um livro pequeno e cortante chamado Sociedade do Cansaço. No original, Müdigkeitsgesellschaft: Müdigkeit é cansaço, Gesellschaft é sociedade.

A tese dele é a seguinte, e eu vou tentar traduzir com carinho.

Antigamente, ele diz, a gente era controlada de fora.

Tinha o patrão, a autoridade, a regra, alguém dizendo o que a gente podia e não podia. Era uma sociedade do dever, do proibido, do não.

Já a de hoje virou uma sociedade do desempenho, do poder, do sim. Ninguém mais precisa te mandar produzir.

Você mesma se cobra, o tempo todo: ser mais, fazer mais, render mais, aproveitar mais, evoluir mais.

E aqui está o veneno, segundo Han: quando o explorador e o explorado viram a mesma pessoa, não existe descanso possível, porque você não consegue fugir de quem te cobra, já que quem te cobra é você.

A gente virou, ao mesmo tempo, o carrasco e a vítima. Trabalha até nas férias. Transforma o lazer em performance. Sente culpa quando descansa. Otimiza até o sono.

O resultado é essa exaustão que ele chama de cansaço solitário: um cansaço de fazer coisas demais, o tempo todo, sem nunca parar de verdade.

Esse cansaço atravessa qualquer noite de sono, porque a origem dele é falta de pausa real. É uma mente que nunca desliga a esteira, mesmo quando o corpo está deitado.

Parar e descansar são duas coisas diferentes

Foi Han quem me fez entender uma distinção que mudou meus domingos: a diferença entre parar de fazer e descansar de verdade.

A gente acha que descansa quando troca uma atividade produtiva por uma de lazer. Larga a planilha e pega o celular. Sai do trabalho e entra na rede social. Fecha o notebook e liga a série.

Mas repara: em todas essas trocas, a mente continua sendo estimulada, alimentada, ocupada. Você parou de trabalhar, mas não descansou. Só trocou de esteira.

O descanso profundo, o que Han e toda a tradição contemplativa apontam, é o não fazer nada de verdade. É o tédio, essa palavra que a gente aprendeu a temer como se fosse doença.

Han escreve que o tédio profundo é o ninho onde a alma choca os ovos, que é justamente no vazio, no não estímulo, que nascem as ideias, o descanso real, a criatividade, o reencontro consigo mesma.

Aqui eu vou ser honesta, porque a imagem é bonita demais pra eu te entregar com a autoria errada: a figura do pássaro que choca o ovo é do Walter Benjamin, num ensaio dos anos 1930.

Han toma emprestada, cita o nome dele, e constrói a tese em cima. Eu adoro que ele tome.

A gente matou o tédio. Não existe mais um segundo vazio na nossa vida sem que a mão corra pro celular.

E ao matar o tédio, matou junto o único estado em que a alma consegue, de fato, respirar.

Um descanso de verdade pra essa semana

Eu vou te propor uma coisa que parece fácil e é das mais difíceis que existem: vinte minutos de tédio deliberado.

Escolhe um momento essa semana. Senta ou deita num lugar confortável. Deixa o celular em outro cômodo, não no bolso nem no silencioso, longe mesmo.

E aí, não faz nada. Não medita com técnica, não escuta áudio, não resolve nada na cabeça. Só fica. Olha o teto, olha a janela, olha a parede. Deixa a mente entediar de verdade.

Vai ser desconfortável. Nos primeiros minutos você vai sentir uma coceira quase física de pegar o telefone, de se levantar, de fazer alguma coisa útil. Fica. Atravessa.

E repara no que acontece depois que o desconforto passa, quando a mente, finalmente sem estímulo, começa a desacelerar de verdade, e algo em você que estava tenso há semanas começa, devagar, a soltar.

Isso é descanso. O que restaura.

Entre nós

Deusa, eu sou filha legítima da sociedade do cansaço.

Eu me cobro o tempo todo. Transformo prazer em meta, viagem em conteúdo, descanso em projeto de autoaperfeiçoamento.

Já me peguei sentindo culpa por passar uma tarde sem produzir nada, como se o meu valor dependesse do meu rendimento, como se existir sem gerar resultado fosse desperdício.

E o mais assustador é que ninguém me obriga a isso. A cobrança mora dentro, virou voz minha.

O que eu venho tentando, e não é fácil, é reaprender o direito ao não fazer. Reabrir espaços de tédio na semana. Descansar sem transformar o descanso em mais uma tarefa de bem-estar pra cumprir.

Aceitar que uma tarde contemplando a chuva talvez seja o tempo mais bem gasto que existe, porque é o único em que eu volto a me pertencer.

Han diz que a vida que não conhece a contemplação é uma vida empobrecida, por mais cheia que ela pareça. E eu acho que ele tem razão.

A gente precisa, com urgência, de mais permissão pra não fazer nada.

A pergunta que eu te deixo pra esse domingo:

Quando foi a última vez que você não fez absolutamente nada, sem culpa e sem tela? E o que será que ia acontecer se você se desse vinte minutos assim essa semana?

Com carinho,

Laylä Föz 🌙