BRISA DA SEMANA

Deusa, e se o feminino não for o que nos ensinaram que era?

Deixa eu te contar um mito.

No princípio, o Lago Titicaca era escuridão.

E foi do meio desse lago, das águas frias e profundas no alto dos Andes, que emergiu Mama Ocllo, ela não veio do céu, ela não veio de uma costela.

Veio de dentro da terra e da água.

Mama Ocllo chegou, olhou ao redor, e, começou a ensinar.

Ensinou a tecer, a plantar, a construir, ensinou os povos andinos a organizar a vida em comunidade, a criar ciclos de reciprocidade, a entender que o sustento de uma pessoa passa pelo sustento de todas.

Pachamama não é "mãe natureza"

Quando falamos de Pachamama no Brasil, quase sempre vem com uma estética de cartão postal. "Mãe Natureza", flores, abraçar árvores, cristais na janela.

Não que isso seja errado, mas é uma versão domesticada de algo muito mais exigente.

Na cosmovisão andina, Pachamama é uma inteligência viva que exige reciprocidade.

  • Antes de plantar, você oferece.

  • Antes de colher, você agradece.

Não como performance espiritual, mas como reconhecimento de que você está usando algo que não é seu, você está em relação.

E isso implica uma coisa incômoda pra nossa cultura: a natureza não está à sua disposição. Você está em relação com ela.

Essa distinção muda tudo.

O feminino sai de ornamento e se torna um fundamento, é essa a virada que a cosmovisão andina propõe.

Não "empoderar" a mulher como se o poder fosse algo que vem de fora. Mas lembrar que o poder estava ali desde o começo.

Mama Killa e o tempo que a gente ignorou

Enquanto Pachamama é a terra, Mama Killa é a Lua.

Na cosmologia inca, Mama Killa não é símbolo decorativo, ela organiza o tempo. Os incas estruturavam o calendário pela lua, os ciclos de plantio, os festivais, as cerimônias, as guerras, os partos.

A vida era organizada pelos ciclos da lua porque a lua organiza os ciclos da vida.

E aqui tem um ponto que me interessa mais do que qualquer coisa esotérica:

  • Os incas entendiam que existir em ciclos é estrutura.

A gente foi criada numa cultura que exige linearidade. Rendimento constante. Disponibilidade total. A mesma presença, da mesma forma, todos os dias.

E quando o corpo não consegue, porque o corpo é cíclico, não linear, a gente acha que tem algo errado com a gente.

Não tem.

O problema é o sistema que te exige ser plana quando você é onda.

Mama Killa presidia esse entendimento, a lua cresce, fica cheia, mingua, desaparece e volta.

É o padrão.

Ayni: o feminino que não se sacrifica

Tem um conceito andino que eu quero que você leve daqui.

Ayni.

Ayni é o princípio de reciprocidade.

Traduzindo livremente: "hoje por você, amanhã por mim."

Não é uma caridade.

É troca real, equilibrada, entre partes que se respeitam.

O que me chamou atenção no Peru, o que eu senti nas histórias das mulheres quéchuas, é que o feminino andino não se sacrifica. Ele troca.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Sacrificar é dar de si sem esperar nada.

É silenciar a própria necessidade porque pedir seria egoísmo. É o que muitas de nós aprenderam que significa ser uma "boa mulher."

Trocar é diferente: eu ofereço o que tenho, e espero que o que eu precisar também me seja oferecido. Não por arrogância. Por equilíbrio.

Mama Ocllo não serviu os povos andinos. Ela ensinou. E isso faz toda diferença.

Servir coloca você abaixo. Ensinar, ou cuidar, ou criar, ou sustentar, pode ser feito de pé.

O feminino não precisa ser empoderado. Precisa ser lembrado.

Eu tenho um certo cansaço da palavra "empoderamento".

Não porque o conceito seja errado, mas porque ela pressupõe que o poder vem de fora. Que precisa ser concedido, conquistado, construído do zero.

Como se o feminino fosse algo frágil que ainda não existe.

A cosmovisão andina propõe outra coisa: o feminino é fundamento. Não precisa ser criado. Precisa ser desenterrado, lembrado, reivindicado.

Você não está construindo poder, está tirando o que foi colocado em cima de algo que já estava lá.

Mama Ocllo emergiu das águas. Não foi criada por ninguém. Ela emergiu.

E tem uma coisa que eu entendi no Peru e que antes eu não tinha palavras pra dizer: A força e a sensibilidade não são opostas. São a mesma coisa vista de ângulos diferentes.

O feminino que sustenta não é o feminino que aguentou tudo calado. É o que conhece seus ciclos, pede reciprocidade, ensina em vez de servir, e sabe que o cuidado pelo mundo começa pelo cuidado consigo.

Isso não é enfraquecimento. É raiz.

Entre nós

No Peru, eu pisei na terra onde essa história começou.

Estive no Lago Titicaca, aquele azul impossível no meio das montanhas, e fiz uma oferenda à Pachamama no Vale Sagrado.

Não porque eu saiba tudo sobre espiritualidade andina. Mas porque havia algo naquele gesto que parecia honrar o que eu já sabia sobre força e reciprocidade, mesmo sem ter palavras andinas pra isso.

E eu voltei diferente.

Não de forma dramática, mas com algo recalibrado por dentro.

Uma mulher que volta de uma viagem assim não volta como saiu, ela volta lembrando de quem era antes de aprender a se encolher.

No Peru, vamos pisar na terra onde essa história começou. Lago Titicaca, Vale Sagrado, oferendas à Pachamama. Uma viagem entre mulheres.

Se isso te chama, vem. As expedições YAZ acontecem exatamente para isso.

Aproveite e venha fazer parte, conosco:

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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