BRISA DA SEMANA

Deusa,

Amanhã é Finados.

No Brasil inteiro, muita gente vai acordar cedo, comprar um maço de flores na porta do cemitério, passar um pano na lápide, acender uma vela e ficar ali um tempo, em pé, sem saber direito o que dizer.

Outras pessoas não vão sair de casa, mas vão pensar em alguém o dia inteiro, mesmo sem querer.

Eu gosto de olhar pra esse dia como um dos poucos rituais coletivos que sobraram pra gente.

Um dia inteiro do calendário reservado pra lembrar de quem veio antes.

Em janeiro eu te deixei uma pergunta aqui, e essa semana eu quero que você volte nela comigo.

A frase da Maya Angelou tem um endereço

Em janeiro eu escrevi sobre uma frase da Maya Angelou que eu carrego há anos: eu sou o sonho e a esperança dos meus ancestrais.

Naquela carta eu falei de continuidade. Que cada uma de nós carrega uma história que começou antes, interrompida muitas vezes e nunca apagada. Que sonhos não realizados não desaparecem. Eles atravessam gerações.

Aqui eu vou ser honesta, porque eu mesma repeti essa frase do jeito que ela circula.

No original são dois versos seguidos do poema Still I Rise, Ainda assim eu me levanto, de 1978:

Bringing the gifts that my ancestors gave, / I am the dream and the hope of the slave.

Trazendo os presentes que meus ancestrais deram, eu sou o sonho e a esperança do escravizado.

Maya Angelou escreveu isso como mulher negra nos Estados Unidos, poucas gerações depois da escravidão, a partir de uma vida inteira de racismo, silenciamento e violência. A palavra, pra ela, era um jeito de afirmar presença.

A frase que circula junta os dois versos e deixa o escravizado de fora. Fica mais fácil de usar, e perde um pouco do endereço.

Eu continuo achando que ela fala com todas nós, porque toda mulher tem alguém atrás dela que não pôde viver o que queria. Só prefiro te entregar a frase com o endereço certo.

O sonho delas era pequeno

Deusa, tem uma coisa que eu escrevi naquela carta e ainda acho verdadeira: o sonho de quem veio antes da gente quase nunca era grandioso.

Era viver sem medo. Era ter autonomia sobre o próprio corpo. Era poder escolher um caminho. Era falar e ser ouvida.

Às vezes era só descansar.

Em maio, no Dia das Mães, eu te falei das mulheres que formam a gente sem ter parido a gente. A avó que mostra que o riso vem do diafragma.

A bisavó que ensinava o que a mãe ainda não sabia. Nenhuma delas entra em livro de história, e mesmo assim elas estão em você todos os dias, num gesto, num ditado, num jeito de temperar a comida.

Por isso eu gosto de usar Finados como um dia de conferir o que ficou.

O que ficou da sua avó em você? Uma receita escrita à mão, uma teimosia, uma reza, um medo também.

A herança vem inteira: junto com a coragem, vem também o que ela não conseguiu resolver.

Queimaram muitas, e o fogo continua aceso

Semana passada eu te contei da vizinha da minha rua que todo mundo chamava de bruxa, e de como ela era o fim de uma linhagem.

E no ano passado, nessa mesma época, eu escrevi aqui uma frase que eu repito até hoje: queimaram nossas ancestrais, mas o fogo continua aceso.

Finados me faz voltar nessa frase.

Nem toda ancestral tem túmulo. Muitas mulheres que vieram antes da gente não têm nome escrito em lugar nenhum. Não deixaram carta, foto, certidão.

Deixaram um chá, uma reza, um jeito de segurar criança no colo, e isso passou de mão em mão até chegar em você.

Lembrar delas também é um jeito de visitar.

Quando você fala sem pedir desculpa, descansa sem culpa, cria sem pedir permissão, você vive exatamente o que muitas delas não puderam viver.

Ser o sonho de quem veio antes nunca foi sobre viver em função de uma dívida. E eu assino de novo o que escrevi lá: viver bem, às vezes, é o gesto mais radical.

Um pequeno rito pra essa semana

Você não precisa ir ao cemitério pra fazer o seu Finados.

Escolha uma noite da semana e acenda uma vela. Pode ser na mesa, num canto da cozinha, na janela.

Do lado dela, coloque alguma coisa de alguém que já foi: uma foto, uma receita, um objeto. Se você não tem nada, escreva o nome num papel.

Se você não sabe o nome, escreva "as que vieram antes de mim".

Depois escreva uma coisa que ela sonhou e não pôde viver. Embaixo, uma coisa que você vai viver por ela essa semana. Pequena. Uma tarde de descanso, uma conversa que você vem adiando, um não.

Deixa a vela queimar um pouco. Fica ali.

E, se a mulher que te formou ainda está viva, faz o que eu te pedi em maio: manda uma mensagem pra ela hoje. O momento certo é enquanto ela ainda pode ler.

Um baralho que trabalha no escuro

Nas últimas semanas eu te contei aqui do meu oráculo. Sabedorias da Terra são 30 cartas, em parceria com a Mushin, e cada carta é um cogumelo.

Eu escolhi cogumelo porque ele trabalha no escuro, decompõe o que morreu e devolve isso pra terra, pra sustentar o que vem depois. Pra essa semana, eu não conheço imagem mais bonita.

Se quiser, tire uma carta na noite da vela e repara no que ela te diz sobre o que ficou.

Você encontra o oráculo aqui:

Com carinho,

Laylä Föz 🌙