BRISA DA SEMANA

Deusa, hoje é 8 de março.

E antes de qualquer coisa, eu preciso dizer: essa não é uma data de parabéns.

Eu sei que o Instagram vai estar cheio de posts cor-de-rosa com frases bonitas, que marcas vão oferecer desconto "em homenagem às mulheres", que alguém vai te mandar uma mensagem com emoji de flor e coração.

E tá tudo bem receber carinho.

Sempre…

Mas se a gente fica só no carinho, a gente esquece do que essa data realmente é e aí ela perde a potência.

Então essa semana, eu quero fazer diferente. Quero te contar de onde vem o 8 de março. Quero olhar com honestidade pra o que já foi conquistado e pro que ainda dói.

E quero te lembrar que ser mulher, neste país, em 2026, é um ato político, mesmo quando você só está tentando viver.

De onde vem o 8 de março?

A história que muita gente conhece é a do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, em 1911.

Naquele dia, 25 de março, 146 trabalhadores m0rr3ram, a maioria mulheres imigrantes, jovens, judias e italianas, porque as portas da fábrica estavam trancadas pelo lado de fora.

Os donos trancavam para impedir que as operárias fizessem pausas ou saíssem antes do horário.

Elas m0rr3ram queimadas, ou, pularam…

Esse episódio não é a origem direta do 8 de março, mas se tornou um dos seus símbolos mais fortes, porque escancarou o que o mundo preferia não ver: que o corpo das mulheres era tratado como mão de obra descartável.

A data em si tem raízes em movimentos operários e socialistas do início do século XX.

Em 1910, Clara Zetkin, uma líder socialista alemã, propôs durante a Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas que se criasse um dia internacional dedicado à luta pelos direitos das mulheres, direito ao voto, ao trabalho digno, ao fim da discriminação.

Em 1975, a ONU oficializou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.

Mas perceba: a origem não é celebração.

É luta, é greve, é fogo, e corpo.

É mulher m0rr3ndo por querer trabalhar com dignidade…

E, toda vez que a gente reduz essa data a flores e chocolate, a gente apaga, sem querer, o sangue que está por trás dela.

O que já foi conquistado:

Seria injusto, e desonesto, não reconhecer o que mudou.

No Brasil, mulheres só conquistaram o direito de votar em 1932.

  • Até 1962, uma mulher casada era legalmente considerada "relativamente incapaz", precisava de autorização do marido pra trabalhar.

  • Até 2002, o Código Civil ainda falava em "mulher honesta" como critério para determinados direitos.

  • Hoje, mulheres são maioria nas universidades brasileiras. São mais da metade da população. Estão à frente de empresas, pesquisas, movimentos, famílias inteiras.

A Lei Maria da Penha, de 2006, foi reconhecida pela ONU como uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica. A tipificação do feminicídio, em 2015, foi um marco.

Houve avanço. Houve luta.

Houve mulher pagando com o corpo, com a reputação, com a vida, pra que a gente pudesse estar onde está.

E isso merece respeito profundo.

Mas se eu parasse aqui, estaria te contando só metade da história.

Porque os números de 2024 e 2025 são de revirar o estômago.

Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015.

Em 2025, esse recorde foi quebrado de novo: 1.518 mulheres assassinadas por serem mulheres.

Pensa nesse número.

Mais de quatro mulheres mortas por dia, todos os dias, o ano inteiro.

Não por acidente, mas por serem mulheres.

O perfil se repete como uma ferida que não fecha:

  • 63,6% das vítimas eram negras.

  • 70,5% tinham entre 18 e 44 anos.

  • 64,3% foram mortas dentro da própria casa.

  • Em 8 de cada 10 casos, o assassino era o companheiro ou ex-companheiro.

  • E, 97% dos autores eram homens.

Ainda em 2024, foram registrados 87.545 casos de estupr0 no país.

Uma mulher estuprada a cada seis minutos. As tentativas de feminicídio cresceram 19%. O stalking aumentou 18,2%. A violência psicológica, 6,3%.

E sabe o que mais me dói?

Cerca de 100 mil medidas protetivas foram descumpridas em 2024.

Mulheres que pediram ajuda, que foram até a delegacia, que acreditaram no sistema e o sistema falhou.

No mercado de trabalho, os dados do IBGE mostram que a taxa de desemprego entre mulheres é de 8,7%, contra 5,7% entre homens.

Mulheres ainda recebem, em média, 78% do que homens ganham, e essa diferença é maior justamente nos cargos mais altos.

Mulheres negras recebem em média 47% do rendimento de homens brancos.

E tem mais: mulheres trabalham em média três horas a mais por semana que homens, quando se soma trabalho remunerado e não remunerado.

Dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados domésticos, 21,4 horas contra 11 horas semanais, e, quando têm filhos pequenos, a taxa de ocupação delas cai.

A dos homens sobe.

São mais instruídas. Trabalham mais. Ganham menos. E morrem mais dentro de casa.

Esses não são números abstratos. São as nossas mães, irmãs, amigas, filhas. Somos nós.

Continuidade: nós viemos de algum lugar

Agora eu quero mudar o tom, não pra suavizar, mas pra ampliar.

Porque falar de 8 de março é falar de ancestralidade. De todas as mulheres que vieram antes e que, de algum modo, abriram caminho pra gente estar aqui.

As parteiras que sabiam o nome de cada erva.

As benzedeiras que curavam com as mãos e a voz.

As "bruxas" que foram queimadas na Europa porque sabiam demais, falavam demais, viviam demais, fora do controle dos homens e da igreja.

Angela Davis, em Mulheres, raça e classe, mostra que a luta das mulheres nunca foi uma só. Que falar de feminismo sem falar de raça é contar uma história incompleta.

Que as mulheres negras estiveram na linha de frente desde sempre, no trabalho, na resistência, na sobrevivência, e, foram sistematicamente apagadas das narrativas oficiais.

Chimamanda Ngozi Adichie, em Todos deveríamos ser feministas, nos lembra que feminismo não é um palavrão.

É a crença básica de que mulheres são seres humanos completos, e que, o mundo deveria refletir isso.

Maya Angelou escreveu que a mulher se levanta, e, continua se levantando, ainda que o mundo inteiro empurre pra baixo.

E sabe o que me conecta mais com tudo isso?

A percepção de que resistir não é só protestar na rua.

Resistir é também criar uma filha com consciência.

É não aceitar o que te diminui.

É ocupar espaço quando tudo diz pra você encolher, é cuidar do seu corpo quando o mundo trata ele como público, é se conhecer quando ninguém te ensinou a se ouvir.

São pequenos atos. Diários. Silenciosos, às vezes.

Mas são atos de resistência.

Celebrar sem romantizar. Lembrar sem paralisar.

Eu sei que é pesado, e eu não trouxe esses dados pra te deixar com raiva ou sem esperança.

Trouxe porque acho que a gente precisa saber, porque enquanto não olha pra ferida, não tem como cuidar.

Mas o 8 de março também pode ser um dia de reconexão.

  • Com a sua força.

  • Com a sua linhagem.

  • Com tudo que você já atravessou e que ninguém viu.

Celebrar não é fingir que está tudo bem. Celebrar é dizer: mesmo com tudo isso, eu estou aqui. Eu continuo. Eu crio. Eu sustento. Eu recomeço.

E lembrar não é paralisar.

Lembrar é honrar. É recusar o apagamento. É dizer o nome das que vieram antes.

Entre nós

Deusa, o que eu quero te dizer nesse 8 de março é simples:

  • Esse dia vai além do parabéns. Esse dia é um dia de justiça, de segurança, de respeito, de igualdade, de espaço pra ser quem você é sem pedir licença.

Mas enquanto o mundo não entrega tudo isso, e ele ainda não entrega, eu quero que você saiba que a sua existência, do jeito que ela é, já é um ato de força.

  • Cada vez que você se escolhe, você honra toda mulher que não teve essa opção.

  • Cada vez que você se conhece mais, você resiste.

E se conhecer como mulher, entender seus ciclos, seu corpo, sua energia, seus ritmos não é luxo, é poder.

Com carinho, Laylä Föz 🌙

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