BRISA DA SEMANA
Deusa, deixa eu te contar de uma manhã dessas no mar.

A maré estava cheia, o vento batia de lado, e eu remei pra dentro de uma série que qualquer parte sensata de mim teria deixado passar.
Não pensei.
Não pedi permissão.
O corpo decidiu antes da cabeça, e quando vi já estava de pé, rindo sozinha, com a água salgada ardendo nos olhos.
Foi só depois, sentada na areia, que percebi o quanto eu havia me domesticado nos últimos meses.
O quanto eu vinha pedindo licença pra rir alto, pra discordar, pra querer o que eu queria sem antes checar se era apropriado, se era bonito, se cabia.
E ali, encharcada e ofegante, eu reencontrei uma palavra que andava esquecida em mim: selvagem.

Selvagem no sentido mais antigo e mais íntimo: ser inteira, sem amputar partes de si pra caber numa sala.
Ser a mulher que sente muito, que quer com força, que tem instinto e segue ele, que conhece o próprio ritmo e não se desculpa por ele.

Existe uma mulher embaixo da mulher comportada (e ela nunca foi embora)
Tem uma psicanalista junguiana chamada Clarissa Pinkola Estés que passou a vida estudando contos e mitos de mulheres ao redor do mundo, e ela chamou isso de "Mujer Salvaje", a Mulher Selvagem.

A ideia dela é simples e profunda ao mesmo tempo: existe em cada uma de nós uma natureza instintiva, antiga, que sabe exatamente o que ama, o que recusa, do que precisa e quando precisa.
E a cultura, com o tempo, foi ensinando essa natureza a calar.
A gente aprende cedo a podar.
Aprende que menina boa não levanta a voz, que mulher elegante não ocupa espaço demais, que existe um jeito certo de sentir e um jeito feio.
E aos poucos, sem nem perceber, vai trocando o instinto pela aprovação, a intuição pela conta de chegar, o desejo próprio pelo cálculo do que os outros vão achar.
Estés dizia que esse instinto soterrado não morre. Ele só se afasta, como uma loba que recua pra borda da floresta mas continua ali, observando, esperando ser chamada de volta.
E o trabalho da vida adulta, pra muitas de nós, é menos aprender algo novo e mais lembrar de algo que sempre soubemos. Reabrir o portal pra essa parte que ficou esperando, paciente, do outro lado do silêncio.

O preço que a gente paga por ser "fácil de conviver"
Por muito tempo eu fui especialista em ser agradável…
Boa de mesa, boa de trabalho, boa de relação, sempre disponível, sempre flexível, sempre disposta a abrir mão do meu pedaço pra manter a paz.
E demorei pra entender que cada vez que eu engolia um "não", cada vez que eu ria de uma piada que me incomodava, cada vez que eu dizia "tanto faz" quando na verdade fazia muita diferença, eu estava entregando um naco do meu instinto em troca de uma harmonia que nem era real, era só ausência de atrito.

O feminino selvagem não transforma você numa pessoa difícil.
Ele só te ajuda a parar de confundir docilidade com bondade.
Dá pra ser generosa sem ser invisível, dá pra amar sem se anular, dá pra cuidar dos outros sem se abandonar no processo.
A natureza não pede licença pra ter estações. O inverno não se desculpa por ser frio, o mar não amansa pra agradar quem chega na praia.
E você, Deusa, também não nasceu pra ser sempre morna…
A mulher selvagem reconhece o próprio ciclo e o honra.
Sabe quando é tempo de recolher e quando é tempo de avançar, quando o não protege e quando o sim liberta.
E não terceiriza pra ninguém a leitura do que ela sente no corpo, porque entende que o corpo é o primeiro território, o lugar onde a verdade chega antes da palavra.

Um pequeno rito pra chamar a loba de volta
Não precisa de muito, e por favor não vire isso em mais uma tarefa na sua lista. É só um convite.
Escolhe um momento da semana em que você esteja sozinha, sem pressa, e faz três perguntas pra você mesma, devagar, deixando o corpo responder antes da mente:
Onde, esta semana, eu disse "tudo bem" quando não estava tudo bem?
O que é que eu venho querendo e ando fingindo que não quero?
Qual é o som que sairia de mim agora se ninguém estivesse ouvindo?
Não precisa resolver nada, não precisa virar plano, não precisa nem contar pra ninguém.
O rito aqui é só escutar, devolver pra si mesma o direito de sentir antes de filtrar.
E talvez, depois disso, fazer uma única coisa, pequena que seja, em que você se escolha primeiro. Recusar um convite que te esgota. Falar a opinião que você ia engolir. Cantar alto no carro. Comer devagar. Nadar fundo.
A selvageria mora nessa fidelidade miúda e diária ao que é verdadeiro em você, muito mais do que nos grandes gestos.

Entre nós
Vou ser honesta com você.
Eu ainda me pego pedindo licença pra existir, mais vezes do que gostaria de admitir. Ainda suavizo opiniões, ainda rio de coisas que não acho graça, ainda escolho o caminho que incomoda menos os outros mesmo quando ele me custa caro.

O feminino selvagem não é um lugar onde a gente chega e fica. É uma conversa que recomeça toda semana, às vezes todo dia.
Mas tem uma diferença entre quem esqueceu que tinha uma loba dentro e quem sabe que ela está ali, recuada na borda, esperando ser lembrada.
Eu prefiro saber. Prefiro sentir aquele incômodo quando me traio, porque o incômodo é o instinto batendo na porta, é a parte selvagem dizendo: ei, isso não é você.
Deusa, qual é a parte de você que anda esperando, paciente, na borda da floresta, só aguardando você lembrar que ela existe?

Onde a selvageria vira corpo
Foi pensando nessa reconexão, nesse retorno ao instinto que a vida domesticada vai apagando, que a gente criou as expedições YAZ. Mulheres juntas num lugar onde o corpo volta a mandar, onde a natureza grande lembra a gente da nossa própria natureza, onde dá pra ser inteira sem ninguém pedindo pra você diminuir.
Acabei de voltar das Águas Amazônicas, a imersão na floresta com mulheres dispostas a chamar a própria loba de volta, e ainda estou digerindo tudo o que aquele rio me devolveu.

As vagas dessas expedições somem rápido, e a próxima já está em curadoria.
Se algo em você se mexeu lendo isso, dá uma olhada antes de a mente arrumar uma desculpa boa pra adiar:
🌙 Expedições YAZ — jornadas femininas em contato com a natureza.
Com carinho,
Laylä Föz 🌙
