BRISA DA SEMANA

Deusa,

Será que você me reconheceria de cabelo curtinho?

Eu passei anos tentando fazer o meu cabelo parecer qualquer coisa, menos o meu cabelo.

Sim, eu fazia progressiva.

E talvez essa informação explique por que eu tenho tanto apego a essa minha juba hoje em dia.

Quem me ensinou que o meu cabelo precisava ser outro?

Essa pergunta eu peguei emprestada da bell hooks.

Em 1988, ela escreveu um ensaio chamado Straightening Our Hair, "Alisando o nosso cabelo".

Ela abre o texto lembrando das manhãs de sábado da infância, quando as mulheres da casa se reuniam na cozinha pra alisar o cabelo com pente quente.

Ela conta aquilo com carinho, como um ritual de intimidade entre mulheres, um tempo só delas, cheio de conversa.

E depois, já adulta, ela se pergunta o que estava sendo ensinado ali, entre um pente e outro, sobre qual cabelo era aceitável.

Aqui eu quero ser honesta e te entregar o texto com o endereço certo.

A bell hooks escrevia como mulher negra nos Estados Unidos, sobre o alisamento como imitação da aparência da mulher branca dentro de uma cultura racista.

Eu não vivo isso na pele, e não vou fingir que a minha progressiva carrega o mesmo peso.

Mas a pergunta dela me atravessou mesmo assim.

Eu não tenho uma resposta pronta pra ela. Mas olhar pras minhas fotos antigas me ajudou a chegar perto.

Meu cabelo já foi muitas mulheres

Já foi super liso. Já foi curto.

Já teve franja. E, normalmente, quando alguma versão da minha criança assume o controle da minha vida por um tempo, eu corto a franjinha bem curta de novo. A minha criança chega e diz: "deixa comigo, gata".

Ele já foi enorme. Já foi queimado de sol, salgado de mar, naquela minha era mais sereia possível.

E hoje ele é isso aqui.

Grande, ondulado, meio indomável.

É a minha juba leonina.

O cabelo nunca foi só cabelo

Faz sentido que o cabelo mexa tanto com a nossa identidade. Em diversas culturas, ele já representou pertencimento, espiritualidade e força.

A história mais famosa talvez seja a de Sansão, no livro de Juízes. Desde antes de nascer, ele foi consagrado como nazireu, do hebraico nazir, "o separado", "o consagrado a Deus".

Quem fazia esse voto não bebia vinho, não tocava em morto e nunca passava navalha na cabeça. O cabelo comprido era a parte visível de uma promessa.

E aqui eu vou ser honesta, porque eu mesma contei essa história errado por muito tempo.

Costumam dizer que a força de Sansão morava no cabelo. O texto conta com mais cuidado.

Quando Dalila manda raspar as sete tranças dele, o versículo seguinte diz que ele acordou e "não sabia que o Senhor se tinha retirado dele". A força foi embora junto com o voto quebrado.

O cabelo era o sinal do compromisso, e foi por isso que perdê-lo doeu tanto.

Tem um detalhe que quase ninguém lembra: logo depois, preso e cego, o cabelo dele começa a crescer de novo.

Eu acho isso lindo.

Para muitos povos indígenas, o cabelo carrega a identidade coletiva e a conexão espiritual. Em várias nações da América do Norte, cortar o cabelo é gesto de luto.

Por isso, uma das primeiras coisas que os internatos do governo nos Estados Unidos e no Canadá faziam com as crianças indígenas, ao chegarem, era cortar o cabelo delas. Quem fez isso sabia exatamente o que estava tirando.

E eu já ouvi de algumas linhagens ciganas que elas trançam o cabelo das crianças pra amarrar os medos antes de dormir, antes de entrar no mundo dos sonhos.

Isso me chegou contado, de boca em boca, e eu te passo do jeito que chegou.

Ou seja, faz muito tempo que usamos o cabelo pra dizer alguma coisa sobre quem somos.

Cada cabelo correspondia a uma versão de mim

Olhando pras minhas próprias fotos, eu percebo isso com muita clareza.

Eu achava que era só o meu cabelo mudando.

Mas cada cabelo correspondia a uma versão diferente de mim. Uma que queria controlar mais. Uma que queria experimentar. Uma que queria parecer mais velha. Outra que queria voltar a ser menina.

E aí tem essa daqui, que quer ocupar espaço.

Eu não quero mais domar tanto o meu cabelo. Eu gosto de volume, de textura. Gosto dele com sal, com movimento, com personalidade. Gosto dessa coisa meio bagunçada, que também faz sentido em mim.

Eu gosto de sentir que ele entra no ambiente comigo hoje em dia.

E, talvez por eu gostar tanto dele hoje, cuidar dele é o meu jeito de preservar essa força, essa identidade.

Ele entrou no momento final do meu ritual de sair de casa. Cabelo, corpo, perfume, tudo junto, sem pressa.

Um pequeno rito pra essa semana

Separa uma noite e abre as suas fotos antigas. Pode ser a galeria do celular, uma caixa de sapato, o álbum da casa da sua mãe.

Escolhe quatro ou cinco fotos suas em fases diferentes, e repara só no cabelo.

Pra cada uma, escreve num papel o nome daquela versão. "A que queria agradar." "A que tinha acabado de terminar um namoro." "A que queria parecer mais velha."

Do lado do nome, escreve o que ela estava tentando dizer com aquele cabelo, mesmo que ela não soubesse.

Depois olha pra você hoje, no espelho, e faz a mesma coisa.

Ninguém precisa ver esse papel. A ideia é olhar pra trás com carinho, sem vergonha de nenhuma delas. Todas te trouxeram até aqui.

Entre nós

É engraçado olhar pra todas essas nossas versões, né?

E eu fico pensando que a versão de hoje, a da juba, também vai ser uma foto antiga um dia. Eu espero olhar pra ela com o mesmo carinho.

Deusa, quantas mulheres o seu cabelo já foi? E qual delas está pedindo um olhar mais carinhoso seu?

Uma carta com forma de fios

Enquanto escrevia, eu lembrei de uma carta do meu oráculo.

No Sabedorias da Terra, as 30 cartas que eu fiz em parceria com a Mushin, a carta II é a Juba de Leão. É um cogumelo branco, macio, feito de espinhos delicados que caem como fios.

No livreto, ela é a carta do passado.

Ela aparece pra te lembrar que olhar pra trás nem sempre é regredir. Às vezes é assim que você recupera partes de si que ficaram esquecidas no caminho.

Se quiser, tira uma carta na noite do rito, antes de abrir as fotos.

Você encontra o oráculo aqui:

A pergunta que eu te deixo pra esse domingo:

quem é a mulher que você quer reconhecer quando se olha no espelho?

Eu saí do "qual cabelo combina comigo?" e cheguei nessa pergunta. E a mulher que eu reconheço hoje, definitivamente, é essa leoa indomável.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙