BRISA DA SEMANA
Deusa,
Essa semana muita gente me perguntou o que eu acho desse bafafá de eleição.
Eu acho que a política está cada vez mais insana, e sim, a gente precisa falar disso.
Política afeta a vida de todo mundo, principalmente de quem tem menos privilégio, de quem tem menos poder de escolha, de quem depende diretamente de política pública.
Mas tem tanta gente muito mais preparada do que eu pra te ensinar alguma coisa de política. Eu sou uma mulher que ainda está estudando, se atualizando, tentando entender a si mesma e entender melhor o mundo.
Quer saber do meu voto, dos meus ideais? Liga os pontos. Você chega na sua conclusão.

Hoje eu quero falar de outra coisa. Daquilo que eu acredito que é o meu lugar aqui: como tudo isso da política aparece no seu processo de individuação, no seu desenvolvimento pessoal.

O macro que a gente defende e o micro que a gente esquece
Eu quero falar da hipocrisia. Da nossa obsessão pela política macro enquanto a gente ignora completamente esses mesmos ideais no micro.
Beleza, você quer dar close no Instagram defendendo fulano, ciclano, a esquerda, a direita, a justiça, a família, a igualdade, a liberdade. Mas e quando ninguém está olhando?
Uma coisa que eu tenho visto muito, inclusive na minha própria lista de contatos, é gente com um discurso impecável e uma vida completamente incoerente com ele.
O cara de esquerda com um discurso lindo sobre as mulheres e que, longe das câmeras, é agressor. O que fala de justiça social e está sempre procurando um jeitinho de sonegar imposto.
O de Deus, pátria e família que trai a esposa no fim de semana e se confessa na segunda.
A mulher que fala de sororidade o dia inteiro, levanta a bandeira, até o abusador ser amigo dela.

Aí aparece aquela frase: eu não sei o que aconteceu de verdade, não quero me meter, ele sempre foi tão legal comigo.
Não adianta querer mudar o macro se no micro você não está fazendo a sua parte, se você não olha com honestidade pro seu estilo de vida, pras suas escolhas.
Não adianta dizer que lugar de bandido é na cadeia e viver de dinheiro sujo. Não adianta dizer que vota pensando no povo e passar pano pro amigo agressor porque ele pode te oferecer um trabalho amanhã.
Não adianta falar de ética em público e negociar seus valores no privado.
Eu já vi isso. Não foi uma, não foi duas, não foi três vezes na minha vida. Foram muitas.

A conta que não fecha
Tem uma coisa muito curiosa, Deusa.
Todo mundo conhece uma vítima de abuso, mas, aparentemente, ninguém conhece um abusador. Todo mundo conhece alguém que já levou golpe. Você conhece algum golpista? Eu também não. Ninguém conhece.
Todo mundo conhece alguém que sofreu algum tipo de injustiça, mas ninguém convive com quem pratica.
Como é que a gente fecha essa conta?

Quando eu falo de individuação, eu penso no Carl Gustav Jung, que trouxe esse termo pra psicologia.
Pra ele, se conhecer de verdade passa por olhar pra sombra, do alemão Schatten: aquilo que a gente não aceita em si e por isso só consegue enxergar no outro.

Quem é você quando ninguém está vendo?
Então, antes de gastar tanta energia tentando provar pro mundo de que lado você está nessa luta política, talvez valha se perguntar quem é você quando ninguém está vendo.
Você joga lixo no chão? Fazer post pra salvar a Amazônia e jogar a latinha pela janela do carro não fecha a conta.
Você trata bem quem não tem nada pra te oferecer?
Você ganha dinheiro de uma forma que respeita aquilo que você diz defender na hora do close?

Você passa pano pra gente escrota só porque é conveniente pra você?
Você tem coragem de se posicionar quando o errado está acontecendo na sua própria casa, na sua própria roda?

Entre nós
Deusa, esse ano eu passei por muita coisa absurda que, com muita classe e graça, estou guardando pra mim.
Mas eu vi tanta gente que prega uma coisa e faz outra que eu estou cada vez menos interessada na sua opinião política do Instagram. Eu quero saber o que os seus atos dizem sobre você.
Porque o discurso mostra o que você gostaria que o mundo pensasse sobre você. O caráter aparece no micro.
Então, cuidado ao acreditar que alguém é bom só porque defende a mesma pessoa que você. Olha mais de perto o que ela está fazendo. Inclusive pra você também.
Porque quem acha que está enganando alguém com essa história, na verdade, está se enganando.
A pergunta que eu te deixo pra esse domingo:
Quando aquela amiga te contou aquela história, como foi que você reagiu?
Com carinho,
Laylä Föz 🌙
