BRISA DA SEMANA

Deusa, eu estive no Peru há pouco tempo.

E eu queria ter escrito antes, mas a verdade é que não sabia o que dizer. Ainda não sei se sei, porque o que aconteceu lá não cabe muito bem em palavras, e toda vez que eu tentava organizar a experiência em frases, ela escapava.

Então eu parei de tentar explicar e, resolvi contar.

Não o itinerário, nem os pontos turísticos, mas o que mudou por dentro.

O que se reorganizou e o que caiu.

Porque voltar de uma viagem assim não é como voltar de férias.

Você não volta descansada, e sim recalibrada e a diferença entre as duas coisas é enorme.

O chão que sumiu…

Pema Chödrön, uma monja budista americana que se tornou uma das vozes mais honestas sobre o que significa estar viva.

Escreveu algo que eu levei pro Peru sem saber que estava levando:

"Ser plenamente humana e estar completamente viva é ser continuamente jogada pra fora do ninho."

Eu li isso anos atrás e achei bonito, no Peru, eu senti o que significa.

Porque tem um momento numa viagem como essa, quando você está longe de tudo que conhece, sem as suas rotinas, sem as suas certezas, sem a sua casa e sem os papéis que você desempenha no dia a dia, em que o chão some.

E eu não estou falando de forma dramática.

Estou falando de uma sensação real, quase física, de não ter onde se apoiar.

Chödrön tem um nome pra isso: groundlessness. Ausência de chão.

E ela diz que a gente passa a vida inteira tentando evitar essa sensação.

Construindo rotinas, identidades, planos, certezas, tudo pra nunca ter que sentir o desconforto de não saber onde está pisando.

Mas é justamente quando o chão some que algo pode acontecer de verdade.

A ternura do que desmorona:

Pema Chödrön ensina a ficar.

Em Quando Tudo se Desfaz, ela escreve que os momentos em que tudo parece frágil e instável, em que a gente não tem referência, em que a vida simplesmente nos pregou, esses são os momentos mais preciosos.

Porque é ali, no meio da vulnerabilidade, que a gente pode descobrir algo que não consegue acessar quando está tudo no lugar.

"Existe algo definitivamente terno e pulsante na ausência de chão."

Isso eu senti no Peru.

Porque tem algo que acontece quando você está a 3.400 metros de altitude, longe de tudo que conhece, sem as suas rotinas, sem os seus papéis, sem ninguém que espere de você o que sempre esperam.

O chão some e o que fica é só você, sem história, sem função, sem personagem.

E em vez de pânico, pode vir uma coisa estranha: alívio.

Foram nove dias pelos Andes.

Cusco, Moray, Salineras de Maras, Ollantaytambo, o trem pelo Vale Sagrado, Machu Picchu, a trilha até as Siete Lagunas, o Lago Titicaca com as ilhas flutuantes de Uros e Taquile.

Cada lugar guardava uma história profunda, e, cada história puxava algo de dentro.

Maitri: o gesto de não se abandonar

Chödrön fala de um conceito chamado maitri, que ela traduz como amizade incondicional consigo mesma.

Ela pergunta:

"Agora mesmo, você consegue criar uma relação incondicional consigo?

Exatamente com a altura que você tem, o peso que tem, a inteligência que tem, e com o fardo de dor que carrega agora?"

Essa pergunta me atravessou no Peru.

Porque a gente fala muito de autoconhecimento, de autocuidado, de amor próprio.

Mas maitri é diferente. É olhar pra si mesma sem tentar melhorar nada naquele momento.

Sem a agenda de "vou trabalhar isso", sem o projeto de se tornar alguém melhor.

É simplesmente estar com quem você é, como está, agora.

E eu percebi que é isso que uma viagem como essa permite.

Quando você sai de todas as estruturas que te sustentam no dia a dia, quando os papéis caem, quando a agenda não existe, quando ninguém te conhece, o que sobra é você.

E a pergunta é: você consegue ficar com essa pessoa?

No Peru, eu fiquei, e, foi ao mesmo tempo a coisa mais simples e mais difícil que eu fiz na viagem.

🌙 A próxima expedição YAZ é Águas Amazônicas, em Alter do Chão.

6 a 12 de agosto de 2026.

Uma travessia de barco pelos rios Tapajós, Amazonas e Arapiuns, entre comunidades ribeirinhas, floresta, silêncio e o Brasil profundo. Se isso te chama, vem.

Parar em vez de preencher

Tem uma frase da Chödrön que eu repito pra mim mesma quase todo dia desde que voltei:

"É uma experiência transformadora simplesmente pausar, em vez de preencher o espaço imediatamente."

No Peru, a gente fez muito isso, pausou.

Ficou em silêncio.

Deixou o tempo existir sem preencher com a próxima atividade, o próximo estímulo, o próximo conteúdo.

E o que acontece quando você faz isso é que o corpo começa a falar.

Coisas que estavam guardadas começam a aparecer.

Emoções sem nome, memórias antigas e desejos que você nem sabia que tinha.

Chödrön diria que isso é o que acontece quando a gente para de fugir do desconforto e resolve sentar com ele.

Ela ensina que nós passamos a vida tentando tornar as coisas sólidas, previsíveis, seguras, e, que todo o sofrimento vem justamente dessa tentativa de controlar o que, por natureza, é impermanente.

"As coisas se juntam e se desfazem. Depois se juntam de novo e se desfazem de novo. É simplesmente assim. A cura vem de permitir que tudo isso aconteça."

No Peru, eu permiti.

E voltei diferente. Sem transformação espetacular, mas com algo solto que antes estava apertado. Uma relação diferente com o desconforto. Menos medo de não saber.

O que ficou:

Eu poderia fazer uma lista do que aprendi no Peru, mas listas são organizadas demais pro que eu senti.

O que ficou foi mais parecido com marcas no corpo do que com anotações num caderno.

A lembrança de que eu consigo existir sem os meus papéis.

Que eu sou alguém mesmo quando ninguém está olhando, que o chão pode sumir e eu continuo de pé, talvez com mais honestidade do que quando ele estava ali.

A prática de parar antes de preencher.

De deixar o silêncio ser silêncio…

A descoberta de que vulnerabilidade e força moram no mesmo lugar.

Que a ausência de chão, essa coisa que a gente tenta evitar a vida inteira, é exatamente onde a gente encontra o que é indestrutível em si.

Pema Chödrön escreveu que o medo é uma reação natural de se aproximar da verdade. Eu acho que o Peru me aproximou.

Entre nós

Deusa, eu escrevo isso sabendo que nem todo mundo vai pro Peru, e, tudo bem.

Mas o que o Peru me devolveu não é exclusivo do Peru.

É o que acontece quando você sai do automático por tempo suficiente pra ouvir o que estava tentando te dizer.

É o que acontece quando você se permite ficar sem chão.

Pode ser numa viagem, manhã de silêncio e em uma decisão que você adia há anos.

O importante é permitir que algo se desfaça.

Porque, como Pema ensina, é no desfazer que a gente descobre o que de fato sustenta.

Se você leu até aqui e sentiu que precisa de um espaço assim, entre mulheres, longe do automático, em contato com algo maior que a sua rotina, veja nossa

- Próxima expedição YAZ: Águas Amazônicas

Alter do Chão, Pará 6 a 12 de agosto de 2026 8x de R$ 1.100 (ou R$ 8.500 à vista)

  • 15 vagas

Uma travessia de barco pelos rios Tapajós, Amazonas e Arapiuns.

O barco é casa e o rio é caminho.

Comunidades ribeirinhas e indígenas, trilhas na Floresta Nacional do Tapajós, argila medicinal, focagem noturna de jacarés, pôr do sol em canoa havaiana, treino na praia, oficina de tecelagem, gastronomia amazônica e muito mais.

Com carinho,

Laylä Föz 🌙

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