BRISA DA SEMANA

Deusa,

A primavera chegou essa semana, e eu quase não percebi.

Foi só quando senti um cheiro diferente no ar, esse perfume que não tem nome mas que o corpo reconhece antes da cabeça, que eu me dei conta de que a estação tinha virado.

O jasmim do vizinho tinha explodido de um dia pro outro.

Um pé de manacá que eu jurava estar morto amanheceu roxo inteiro.

E eu ali, no meio da correria de sempre, quase deixei passar batido o momento em que o mundo lá fora decidiu recomeçar.

Fiquei pensando em quantas primaveras eu já deixei passar assim, de relance, pela janela do carro, entre um compromisso e outro…

A florada também tem seu tempo, e não é o seu

Tem uma outra coisa que a cerejeira ensina, e essa é pra mulher que vive se cobrando.

A árvore não floresce antes da hora porque alguém mandou.

Ela não se compara com a do quintal ao lado que abriu primeiro.

Ela não acha que está atrasada.

Passou o inverno inteiro parecendo morta, recolhida, sem dar sinal nenhum, e ninguém a acusou de estar perdendo tempo.

Porque o mundo entende, quando se trata de árvore, que o tempo escuro faz parte do florescer.

Só com a gente é que a gente não tem essa paciência.

O período de recolhimento vira suspeita de fracasso, o inverno interno vira urgência de já estar melhor, o tempo de espera vira ansiedade de estar ficando pra trás.

E se você desse a si mesma a mesma paciência que dá naturalmente a uma árvore? E se o seu florescer também tivesse um tempo próprio, que não obedece a calendário nenhum além do seu?

Um hanami pra essa semana

Eu quero te propor uma prática que é a coisa mais simples do mundo e, por isso mesmo, a mais difícil de fazer de verdade.

Uma vez essa semana, escolhe uma coisa viva e efêmera pra contemplar.

Pode ser uma flor que abriu perto de você, o céu no fim de tarde, uma fruta madura, o rosto de alguém que você ama dormindo.

Qualquer coisa que seja bela e que você saiba que não vai durar.

E aí faz o seguinte: senta, ou para de pé, e olha.

Só olha. Sem fotografar, sem legendar mentalmente, sem pensar no que vem depois. Deixa a beleza entrar sem tentar guardar. Cinco minutos bastam.

Vai bater um leve desconforto, é normal, a gente desaprendeu a não fazer nada. Mas fica. E repara no que acontece por dentro quando você permite que algo lindo simplesmente aconteça diante de você, sem transformar em tarefa, sem transformar em conteúdo, sem transformar em nada além de presença.

Isso é hanami.

Isso é honrar a primavera do jeito que ela pede pra ser honrada.

Entre nós

Deusa, eu confesso que sou péssima nisso.

Sou daquelas que vê um pôr do sol lindo e a primeira coisa que faz é pegar o celular. Que entra num jardim e já vai pensando no que vai postar.

Que tem uma dificuldade quase física de ficar diante da beleza sem tentar fazer alguma coisa com ela, capturar, compartilhar, aproveitar. Como se contemplar sem produzir nada fosse desperdício.

Mas a primavera me pega todo ano no mesmo ponto fraco. Ela me lembra que a beleza não veio pra ser útil, veio pra ser vista.

E, que talvez a coisa mais revolucionária que uma mulher ocupada possa fazer nesse mundo que exige produtividade o tempo todo seja sentar debaixo de uma árvore florida e não fazer absolutamente nada além de existir ali, junto com ela, enquanto dura.

É esse encontro entre beleza, presença e o tempo certo das coisas que a gente busca em cada expedição YAZ.

Levar mulheres pra lugares onde a natureza é tão grande que obriga a gente a parar, a olhar, a lembrar que existe um mundo lindo acontecendo enquanto vivemos de cabeça baixa.

🌙 Expedições YAZ — jornadas femininas em contato com a natureza. Os próximos destinos estão em curadoria.

A pergunta que eu te deixo pra esse domingo:

O que está florescendo perto de você agora, breve e lindo, esperando só que você pare pra olhar antes que o vento leve?

Com carinho,

Laylä Föz 🌙